A probabilidade de envelhecer

Já estava ruminando um post sobre este assunto há alguns meses, mas a indicação de um livro por Camilo me forneceu o ferramental para entender aquilo que eu estava intuindo.
Tendo visto a argumentação do Taleb, já não consigo articular os pensamentos razoavelmente poéticos que estavam passeando pela minha cabeça. Sempre que me aproximo de um deles, sou capturado pelos raciocínios elegantes do livro “Fooled by Randomness”.

Minha intuição era que, ao longo da nossa vida, vamos construindo conceitos, regras e soluções. No início, tudo é novo, as regras são poucas, os exemplos idem e é sempre mais fácil alterar a nossa postura. À medida que o tempo passa, algumas idéias vão sendo reforçadas e ainda que contra-exemplos nos sejam apresentados, toda a nossa experiência prévia mantém a nossa convicção de que estamos certos.

Um exemplo uni-dimensional disto é a manutenção de uma média histórica. Se, desde o meu nascimento, eu registrasse o número de pessoas com óculos de grau que encontrasse na rua, é possível, a depender da minha idade que a minha média não sofresse grande perturbação depois do advento das lentes de contato e das cirurgias a laser [para correção de miopia].

Neste exemplo, propositadamente simples, fica claro que alguém mais novo leva vantagem. Ainda que sua experiência seja menor, todo o conhecimento acumulado, é, no contexto corrente, apenas fonte de erro, erro este potencialmente maior que o eventual erro [oriundo] da inexperiência.

Com a convicção de que a nossa observação do mundo tem como propósito último a nossa sobrevivência, observo que nosso apego por regras é especialmente pronunciado quando estamos evitando perigo ou mesmo algum desconforto. Se sempre que eu fui procurar comida perto de cavernas do lado do lago, uma família de leões estava lá, após algumas visitas, vou batizar as cavernas perto do lado de lugar amaldiçoado e nunca mais volto lá. De nada adianta saber que os leões foram mortos ou se mudaram. O lugar é maldito.

Num contexto ligeiramente mais moderno, todas as vezes no passado que tomei chuva me lembram de sair de casa com o guarda-chuvas. O desconforto da chuva e do frio exagerando a nossa percepção da probabilidade de chover[um argumento interessante apresentado por Taleb, que me ajuda neste exemplo, é a existência de estudos que mostram que experiências negativas tem maior impacto sobre o nosso humor e tendem a ser retidas por mais tempo na nossa memória que experiências positivas].

Enfim, envelhecer é abraçar velhas percepções, regras e probabilidades. Achar que aquilo que me serviu tão bem ajudará a todos que virão. Envelhecer é escrever um livro de auto-ajuda e esperar que ele funcione.

Mas Taleb vai além, mostrando que boa parte das nossas verdades e regras funcionaram por puro acaso ou foram construídas, a posteriori, em nome de uma busca inata pela razão e motivos, mesmo quando estes não existem ou não são aparentes. Dado um evento que nos é favorável, vamos buscar eventos que expliquem este resultado. O livro é, obviamente, muito mais que isto e uma excelente leitura.

In the end, this is a random and unscripted world, one which the book of rules was not even lost, it was simply never written.

PS. the last line is not from the book, but one I have written originally in another context.

Posted by Roberto de Pinho

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