Mentindo para Crianças

Tenho todos os requisitos para escrever um grande livro de auto-ajuda sobre como educar crianças. Se fosse começar a escrevê-lo agora, certamente, no momento da publicação, daqui a um par de anos, o editor já poderia até colocar, numa orelha : O autor é “Doutor pela Universidade de São Paulo”, pouco importando o fato de que o mais perto que minha pesquisa do doutorado chega de uma criança é o fato de existir uma creche no campus, por onde passo, eventualmente, pela frente.

No entanto, o meu maior predicado para escrever o tal livro é não ter filho algum, nunca criei ou eduquei ninguém desde a mais tenra idade. Sem filhos posso manter o necessário distanciamento, bolar estratégias mirabolantes e escrevê-las sem culpa, sem nunca ter passado pelo constrangimento de tê-las visto falhar espetacularmente quando postas à prova. Posso criar regras e passos à vontade, sem sabê-los impossíveis ante a necessidade de pô-las em prática contra uma misteriosa criatura, um pequeno humano, a quem os pobres pais estão irremediávelmente atrelados, por laços de afeição, encantamento, obrigações e acúmulos de frustrações e exigências.

Neste livro, que nunca será escrito, haverá um capitulo inteiro dedicados à mentiras que os adultos contam às crianças. São várias e freqüentes e, geralmente desnecessárias ou burras. Do meu ponto de vista privilegiado, que me permite sempre estar descansado o suficiente para pensar numa abordagem inteligente, sou testemunha de mentiras dadas por preguiça ou costume, quando a verdade, um pouco mastigada, mas não alterada, seria mais que apropriada.

Poderia citar inúmeros exemplos e situações, mas tenho certeza que a rica experiência do meu leitor o levará aos casos concretos do que falo.

Mas além dos pequenos casos do cotidiano, temos as grandes mentiras, como escolhemos, como sociedade esconder a realidade das crianças. Me dá nojo a reação de parte da mídia e de políticos contra um livro de geografia que ousou dizer o óbvio para meninos da 6a série: o Rio de Janeiro encontra-se loteado pelo tráfico de drogas.

Também são várias as tentativas de coibir aulas de educação sexual na rede pública de ensino, tapando o sol com peneira e ignorando a nossa relativa precocidade sexual. As drogas também são envoltas num véu de mistérios que só aumenta, acredito, o seu consumo e danos do que se dados e informações concretas fossem divulgas, sem preconceitos.

Apesar de admirar muito a frase de John Stuart Mill sobre o erro de achar que todo conservador seja necessariamente estúpido, acredito que eles, os conservadores, com sua insistência em mentir para crianças podem torná-las estúpidas de fato, e conservadoras.

Posted by Roberto de Pinho

3 comments

A princípio, sem raciocinar muito, sou a favor do “jogo aberto”, e da divulgação no livro de geografia. Mas discutindo comigo mesmo acabo atravessando uma certa confusão de argumentos, os quais gostaria de compartilhar.
Até que ponto devemos “abrir os olhos” das crianças para o “mundo real”? A FANTASIA não seria importante para a formação da personalidade da pequena criatura, mesmo que todas as maravilhas sejam destruídas, uma a uma, mais tarde? Aliás, esse “debut” para a realidade, esse impacto, não seria até necessário para um verdadeiro amadurecimento moral e intelectual?

Não lembro de ter conhecido alguém que tenha se arrependido de ter acreditado em Papai Noel ou no Bicho Papão. Naquela época, creio que valeu, pra ela. Agora, ela acredita em outras coisas não menos “místicas”, como Deus, destino, milagres, aura, pensamento positivo e que o Brasil é um país com futuro brilhante. Será que a descoberta gerou um trauma? Em caso positivo, será que o trauma foi realmente maléfico? Ou foi na verdade um aprendizado?

Negar verdades a uma criança seria então um desrespeito? Ou uma forma de proteção? “Tudo tem seu tempo” ou “As crianças não são tão ingênuas quanto nós pensamos”?
Entre um e outro, fico com Nietzsche e acho que sofrer é necessário. Acordem, pois, as crianças.

Gostaria de convidar Sissi pra comentar também, certamente ela tem algo a falar sobre isto.

Assino embaixo. 🙂

Sim para uma coisa e sim para a outra. Fantasia é fundamental, por causa do tipo de processamento cognitivo infantil. Mas a fantasia tem que ser uma ferramenta para a apreensão da realidade, não uma desculpa para a *fuga* da realidade. Tenho um exemplo pessoal concreto:

Quando eu era pequena, odiava comer. Mas acho que todos adultos concordarão comigo e com minha mãe que eu precisava comer. É uma realidade. O cúmulo da superproteção seria desejar que, de alguma forma, eu não precisasse comer, para não precisar contrariar minha inapetência. Ao invés de esconder de mim que a alimentação era necessária, minha mãe inventou uma historinha fantástica, que funcionou absurdamente durante anos: era preciso alimentar os soldadinhos que moravam dentro da minha barriga.

Eu acho que seria desnecessário, por exemplo, me levar para a Etiópia e me mostrar crianças como eu comendo barro e morrendo de fome, com urubus atacando seus cadáveres. Eu não conseguiria processar isso. Essa realidade é desnecessária, não porque é feia ou imoral, mas simplesmente porque a criança não tem bagagem emocional, estruturação cognitiva ou sequer vocabulário para apreender, processar, sintetizar, compreender os complexos e inúmeros conceitos abstratos envolvidos na situação. Mas eu precisava saber, de alguma forma, que não me alimentar não era uma opção.

Não vamos ensinar sexualidade pras crianças de 6 anos com vídeos pornográficos com conteúdo totalmente irreal para elas. Mas a história de papai plantar uma sementinha na mamãe, para uma criança de dois/três anos, é muito melhor que receber o bebê pela cegonha. Daí podemos mostrar como os animaizinhos namoram, que cada um tem um jeito próprio de namorar, que as plantas também namoram, que todo ser vivo que ela consegue ver namora (elas são irão entrar em contato com as formas paradoxais de vida como vírus e bactérias muito, muito mais tarde). Existem mil formas de explicar uma coisa pra criança. Mil formas fantásticas e maravilhosas. Mesmo para o tráfico existem mil formas maravilhosas de falar sua existência (monstros também devem fazer parte do nosso repertório fantástico). A criança tem muito mais mecanismos de homeostase psíquica que a gente imagina. O ser humano em geral.

Agora, gente. Por favor. Crianças? De sexta série? Estamos falando de quê, 12 anos de idade? Com 12 anos de idade, eu já tinha menstruado. Com 12 anos de idade, esses (pré)adolescentes já estão servindo de aviões!

Em que mundo essas pessoas vivem, hein? Vamos falar da guerra fria, das grandes guerras, dos furacões, terremotos, vulcões e toda sorte de desastres naturais, mas não vamos falar de drogas, de narcotráfico?

Pra mim é isso tá mais para aquela velha história da idealização da infância. É uma longa discussão, mas, resumindo, não sei de que forma foi abordado o narcotráfico no livro, mas o rebu não devia girar no fato de ser abordado, mas como ser abordado.

Deixe uma resposta