Pequenas Violências

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Somos muito mais sensíveis às pequenas violências concentradas do que às grandes violências diluídas. Somos muito mais sensíveis ao ônibus que mata 20 no acidente dos que aos 35 mil que morrem silenciosamente no nosso trânsito ao longo de um ano. Se 5 jovens do Leblon morrem em um carro, assunto do Fantátisco. Só aí, quando jovens dourados são vítimas, é que passamos uma semana enxergando o problema. Só aí percebemos que a cada hora 4 pessoas morrem no Brasil em acidentes de trânsito, todos as semanas, todos os dias.


Não sei até que ponto somos naturalmente sensíveis a estes eventos, ou se isto é reflexo da visão da mídia, indústria de novidades. Como dizia o Padre Antônio Vieira, Demócrito ria sempre, logo não ria. O cotidiano, por mais brutal que seja, não é notícia.

Nos jovens mortos do fantástico somam-se dois efeitos para a atenção da mídia: terem morrido 5 num só acidente e serem moradores do “andar de cima”. Serem eles, o retrato dos filhos, sobrinhos e amigos daqueles que fazem o Fantástico. Bastam pouco mais de 2 horas para que 5 jovens do “andar de baixo” morram vítimas de arma de fogo, neste mesmo Brasil. No mesmo Rio de Janeiro, morrem 8 vezes mais jovens por arma de fogo que em Israel e na Palestina, juntos.

Do discurso inflamado da Senadora Heloísa Helena, gosto do paralelo que ela faz entre a violência pontual e a violência cotidiana:

No dia que eu perder tolerância com meu filho agredido, passo a não ter tolerância com os filhos da pobreza agredidos também. No dia que perder a possibilidade de me indignar vendo a dor e a miséria na minha casa, eu perco com os outros também.

E neste momento, enquanto fecho esta entrada no blog, o Fantástico celebra o 11 de Setembro, onde 3000 moradores do “andar de cima” morreram. Menos de 10% entre os mortos do Iraque desde a invasão pelos EUA.

© foto: S.i.s.s.i & Igor A. Y G. @ UFScar, São Carlos, SP, 2006

Posted by Roberto de Pinho

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