As coisas: olhar outro

Ele passa e olha através do vidro. Sei que me deseja. Nada o impede. Em 5 minutos poderia estar em seus olhos. Em 5 minutos poderia suavizar o mundo para ele. Mas não, ele prefere seguir. Prefere ? O que o amarra ? Por que deixa o sol franzir sua testa ?

Já quase vai, mas me olha. Se me tens, de mim se esquece, me torna satélite do seu ser. Mantido por uma atração invisível. Alguns movimentos se imprimem e ficam e repetem-se mesmo na minha momentânea ausência.

Mas num instante, fujo, num ciúme de outra atenção, num lapso bêbado, numa alegria que o leva a outro lugar, deixada para trás, recuso-me a gritar.

Assim, não mais estaremos juntos. Esta escolha nunca será minha. Se vai nada faço, se volta aceito.

Mas, nesta ausência, ganho importância, pouco se importa comigo, mas como pude escapa-lo, que deficiência sua não o deixou manter domínio sobre a mais inerte das coisas, como deixou fugir quem tem pernas para prender ? Como salvar o mundo se nisto não se conserta ? Como ter outras sabendo que um dia irá também perde-las, a mim, de novo.

Posted by Roberto de Pinho

7 comments

A hesitação que precede o impasse e que frustra o ser se resume em uma so frase célebre e que resume a consciência que reprime o desejo:

“Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé”…

Merci !

Carâmbolas. Foi você que escreveu isso?? o.O

“Como ter outras sabendo que um dia irá também perdê-las, a mim, de novo”.

Essa frase está absurdamente bem escrita.

Fiquei curiosa para saber o que provocou este texto. Tem uma série desses? Algo que venha antes ou depois? Você devia postar mais coisas assim por aqui.

A resposta foge a um comentário…

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