Certa desventura


Um Dia,

os economistas irão notar,

os sociólogos e antropólogos, observar,

filósofos irão debater,

mas estatísticos irão finalmente confirmar:

O falar português inequivocamente aumenta as chances de [alguém] sofrer a eterna desventura de viver à espera de viver ao lado teu.

Strogonoff de atum

Atendendo a pedidos, um momento Ana Maria Braga.

Strogonoff de atum

2 colheres de sopa de cebola ralada
2 colheres de sopa de azeite de oliva
3 tomates sem pele e sementes picados
500ml de creme de leite fresco
2 latas de atum
1/2 xícara de conhaque, ou cachaça
sal a gosto
1 colher de sopa de catchup
1 colher de chá de molho inglês
1 colher de chá de mostarda

Preparo

1. Doure a cebola no azeite. Acrescente os tomates e deixe até desmancharem. Junte o creme de leite e deixe reduzir um pouco.

2. Acrescente o atum, o conhaque e aqueça bem. junte o sal, o catchup, o molho inglês e a mostarda. Misture e sirva.

Sirva com arroz e batata palha.

Adaptado de 50 Receitas do Mar por Olivier Anquier, Atum Gomes da Costa.

Discurso Mestrado

Discurso de Titulação – Mestrado em Regulação da Indústria de Energia – UNIFACS – 30 de Maio de 2003

Há algum tempo, assisti uma palestra, talvez seja melhor dizer discurso, de um dirigente de uma agência reguladora de um grande país da América do Sul. Como não foram poucos os representantes de agências que participaram da formação da nossa turma, posso ficar tranqüilo que a identidade do palestrante será preservada. Nesta palestra, dirigida aos funcionários da agência, foi traçado um perfil do regulador. Era tão fantástica a criatura descrita, que eu não seria capaz de reproduzir nem um quinto do tal discurso.

Estes seres perfeitos, capazes de habitar apenas no Olimpo, ou quem sabe, Brasília, deveriam, simultaneamente preocupar-se com os aspectos técnicos, econômicos, legais, sociais, ambientais, financeiros e culturais dos problemas enfrentados. Sempre agradando a gregos e troianos, consumidores e concessionários. Isto para não falar na conduta pessoal, pois eles deveriam ser ausentes de vícios, incapazes de cometer erros.


Tudo seria perfeito naquela tarde de sol no Olimpo, se não estivessem estes semi-deuses ocupados da tarefa de regular a vida de todos nós, pobres mortais. Me pareceu muito errado e estranho que estes seres perfeitos fossem capazes de regular mercados e relações sociais que são muitas vezes imperfeitas, quase sempre desiguais e algumas vezes, mas até do que deveriam ser, injustas. Relações que são antes de tudo Mutáveis.

A confirmação desta minha suspeita ocorreu algum tempo depois, quando já estava numa aula do Mestrado em Regulação da Indústria de Energia. Nesta aula, um dos moradores do Olimpo, a convite de um de nossos professores, falava de o quanto seria oportuno que empresas de todo o país, passassem a apresentar suas faturas de forma padronizada, provavelmente em preto e branco, cheia de códigos. Assim, seria mais fácil, para ele e seus técnicos analisar as mesmas, quando necessário. Estamos falando em interferir na rotina de milhões de consumidores, de impedir inovações, como, por exemplo, colocar uma estória em quadrinho educativa, ou usar cores que agradem aquela região, para facilitar a vida de meia dúzia de técnicos. Se este pensamento se aplica a um detalhe como este, o que dizer de outras questões ?

Mas hoje, felizmente, estamos aqui para a titulação não de meia dúzia de técnicos, mas de 12 seres humanos, logo seremos 14, completos com suas qualidades e defeitos. E para ficar nas qualidades, já que tivemos mais de 2 anos para conhecer os defeitos uns dos outros, falo na que é para mim e como já foi dito aqui, a maior qualidade desta turma e deste curso, desde a sua concepção, que é a sua diversidade.

Se podemos casar megabyte com megawatt, queda de tensão com alínea segunda, petróleo e seqüestro de carbono, é porque somos um grupo composto de arquiteto, economistas, muitos engenheiros eletricistas, analista de sistemas, químicos industriais, engenheiro químico e até engenheiro naval. Certa vez, conversando com Dr. Afonso Henriques, engenheiro eletricista, doutor em engenharia elétrica, na época diretor da ANEEL, disse-lhe que havia muitos engenheiros da diretoria da agência. Para o meu espanto, até ele concordou.

E foi através da correlação de forças desta turma toda que formamos um time capaz, cada um a seu tempo, de observar cada um dos aspectos necessários à hercúlea tarefa da regulação. E olhe que os trabalhos foram mais que os apenas 12 do Hércules original. Falamos desde protocolo de Kyoto até termodinâmica e achamos algo ou até muita coisa no meio do caminho.

Trabalhos estes pedidos por professores tão diversos como nós mesmos. Temos desde a seriedade amiga de Paulo Rocha e suas temíveis equações de balanço de poço até a gargalhada e o humor britânico de Osvaldo Soliano.

Tivemos também relutantes moradores do Olimpo, como é o caso do nosso Tanure, que sempre que pode volta a esta cidade, para renovar as idéias, as suas, mas principalmente, as nossas. Professores como a professora Olívia, que com todo carinho buscou nivelar o conhecimento de uma turma de origem tão diversa.

Ou ainda, o nosso professor de direito, Honorato, advogado, que ao contrário de todas as nossas expectativas, e como vocês puderam ver, era um dos mais brincalhões, e ouso dizer, dos mais gaiatos, e, também por isto, um dos mais queridos.

E deste caldeirão, que começou como turma, teve que virar time, eis que surge uma equipe, que continua unida, sob este teto. Isto é possível, pela visão dos polivalentes James e André, e hoje orquestrado pelo onipresente Ricardo e sua equipe : Andréia, Carol, Roberta, Letícia. Hoje, mais da metade dos que estão recebendo seus títulos trabalham na Universidade Salvador, pesquisando e ensinando, sabendo utilizar as habilidades mútuas e a trabalhar juntos, dando sentido e uso ao termo colegas.

Colegas que junto comigo recebem o diploma hoje, colegas como Normando e Ana Cristina que logo estarão recebendo os seus, e colegas como o líder de nossa turma, Jorge Ramalho, que por um motivo ou outro não terminaram o mestrado, mas que espero ver de volta nesta casa. A eles, obrigado pela companhia neste processo, e todos vocês, muito obrigado pela atenção.

Roberto Pinho, Mestre em Regulação da Indústria de Energia.

Discurso de Formatura

Estas semanas ando envolvido com a produção de textos ( além deste blog ). Lembrei que o meu discurso de formatura da graduação não estava mais online. Deve ser o meu texto de maior repercussão. Enquanto ele esteve online, a cada fim de semestre, eu recebia um ou dois emails pedindo ajuda na escrita de discursos de formatura.

Coloco ele aqui para que desfrute das rotinas de backup do Blogger.

Veja também: Discurso Mestrado

Discurso de Formatura – Graduação Análise de Sistemas – UNIFACS – 1995

Boa noite, Vou fazer uma pergunta, uma pergunta que poderia até ser considerada pouco apropriada para a ocasião. Na verdade, espero que não me arrependa em faze-la :

Por que estamos aqui, esta noite ?

Por que as senhoras estão usando, em sua maioria, sapatos de saltos altos, belos, porém desconfortáveis. E boa parte dos senhores, gravatas que apertam o pescoço de todos. Por que eu, e meus colegas, antes de faculdade e agora de profissão, vestimos estas roupas complicadas,
embora muitos de nós preferíssemos estar usando confortáveis bermudas, por quê ?

Mais ainda, por que minhas colegas, delicadamente discutiram, sem nenhuma exaltação, qual a cor da roupa que usariam neste evento ?

Por que enfrentamos um bom engarrafamento na hora da chegada ?

Todos estes sacrifícios para quê ?

Para a graduação de profissionais que não foram responsáveis por alimentar a raça humana ? Nós, analistas de sistemas, não alimentamos os nossos semelhantes, durante secas, invernos rigorosos ou mesmo guerras. Nós não descobrimos como plantar alimentos ou tratar animais, ou curar suas doenças, como fazem os agrônomos ou os veterinários. Sempre preocupados em como fornecer alimentos para uma população mundial cada vez maior. Nós também não construímos casas, pontes ou estradas. O produto do nosso trabalho não é algo palpável como o produto do trabalho de engenheiros e arquitetos. Não construímos casas que nos protegem do
tempo e de nós mesmos. Não construímos as casas que moldaram a nossa sociedade e a forma como nos relacionamos. A sociedade feudal não seria a mesma sem os castelos, assim como a nossa sociedade e nossas famílias não seriam as mesmas sem as nossas casas. Não construímos pontes que unem, ou separam povos. Pontes que juntaram cidades como em Buda e Peste
e separaram famílias quando destruídas. Não fizemos as estradas que moldaram impérios e economias. O império romano expandiu-se com estradas. Com elas, os romanos podiam movimentar exércitos e produtos, podendo, assim controlar desde a península ibérica até o Egito. Não salvamos vidas, não combatemos doenças. Não estivemos presentes quando o
homem luto contra pestes ou desenvolveu técnicas de cirurgia, que permitem, até, que sejamos mais bonitos. Não temos a satisfação dos obstetras de trazer novas vidas a este mundo ou de fazer bater um coração de alguém já falecido no peito de outra pessoa. Até criamos vírus. Talvez numa tentativa de também criar algo vivo.

Por outro lado, se não estivemos em quase todas as situações críticas da história da humanidade, não consigo imaginar muitos exemplos de eventos que não contarão com a nossa participação ou ajuda daqui para diante. É difícil imaginar o trabalho de qualquer um destes
profissionais, no mundo atual, sem a ajuda de computadores. E o nosso trabalho é justamente fazer com que pessoas e computadores trabalhem juntos, fazer com que estes tornem possíveis os objetivos daqueles. Se não produzimos alimentos, a informática já está em boa parte das
fazendas. Se não construímos casas, pontes e estradas, também moldamos a sociedade. Hoje, a Internet está trazendo o mundo para as nossas casas, destruindo paredes e ligando pessoas a distâncias que um engenheiro certamente se recusaria a construir uma ponte. Se o império romano foi construído graças ao seu domínio sobre os meios de transporte e as
estradas. Hoje, as superpotências são construídas com capacidade de movimentar informações, a matéria-prima do nosso trabalho. O mundo pós guerra fria, com certeza será conhecido como era da informação e nós seremos os seus engenheiros. Não salvamos vidas, mas trabalhamos em
conjunto com médicos, seja coletando dados estatísticos, seja, através do uso de inteligência artificial, criando sistemas especialistas capazes de substituir, em alguns casos, médicos reais. Bem, e os vírus que nós criamos, não matam ninguém.

Mas se hoje todos sabem e usam computadores, por que precisamos de analistas de sistemas ?

Se computadores são tão simples de usar, por que passar quatro anos em uma faculdade ?

Por que estudar matérias como Pesquisa Operacional, Contabilidade ou computador e sociedade, entre outras ?

Por que deixar de divertir-se e ter que fazer centenas trabalhos em grupo ? Muitas vezes perdendo todo o fim-de-semana ?

Por que todos nós fizemos estágio, mesmo que nosso currículo não exija ?

Por que buscamos e recebemos, por tantas vezes, o apoio de nossos pais ?

Por que nós reunirmos tantas vezes ? Foram tantas a reuniões que até inauguração de sofá, nós fizemos. Por que estudamos assuntos tão díspares como realidade virtual e redes de computadores, passando até por qualidade total. Por que estudamos tudo isto se qualquer um pode usar um computador ? Por que saímos de nossas salas, limpas e ar condicionadas e fomos a instituições de caridade, extremamente carentes, oferecer nossos serviços, gratuitamente ?

Fizemos tudo isto, por que qualquer um pode receitar uma aspirina, mas eu não faria uma operação de apendicite com a minha vizinha, por exemplo. Qualquer um pode armar uma barraca de camping, mas com certeza, Itaipu não foi feita por qualquer um. Qualquer um pode ir a um tribunal de pequenas causas para questões que envolvem até 10 salários mínimos,
mas em qualquer causa acima deste valor ou que não seja estritamente financeira, com certeza, será necessária a ajuda de um advogado. Qualquer um pode editar um texto, instalar uma planilha ou desenvolver um programa, mas com certeza, não será qualquer um que pode desenvolver sistemas de informações, projetar redes de computadores, se preocupar com o impacto da informática numa organização ou na sociedade, administrar bancos de dados corporativos ou muitas outras funções que um bacharel em ciência da computação sabe execer. Se hoje qualquer um pode usar um computador é por que muito trabalho foi feito em informática, é porque existe gente pesquisando e trabalhando com computadores.

É estratégico para o nosso país, manter-se na liderança desta tecnológia. Liderança que só é possível com estudo e pesquisa de qualidade.

Não, não estou em nada arrependido de ter perguntado porque estamos aqui hoje, e muito menos estaria arrependido de ter feito o curso que fiz. Sinto-me, agora, como Colombo partindo do porto de Palos, triste por deixar a sua terra, mas pronto para construir um novo mundo. Pelo menos, sempre poderei ver a todos na internet.