O espaço da esperança

No atual e apaixonado embate entre “esquerda” e “direita” por que passamos, a classificação de qualquer iniciativa como de esquerda ou de direita é condição suficiente para arregimentar defensores e detratores. Perdemos a capacidade de análise de consequências, perdemos a capacidade da construção de compromissos. E, principalmente, a capacidade de idealizar um futuro comum.

Tug of War! Jason Eppink #flickr https://flic.kr/p/8mofyu Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

 

Em escala global, estamos assistindo à potencial introdução de tecnologias com a capacidade de transformar a estrutura produtiva da sociedade e a oferta de empregos disponíveis em uma magnitude antes só vista durante a revolução industrial. E em face desse desafio, é importante examinar com carinho as opções que se apresentam.

Tomemos como exemplo a introdução na economia de veículos autônomos. No Brasil, motoristas em geral representam 1,8 milhão de trabalhadores e trabalhadoras, quase 4% do total de 48 milhões vínculos empregatícios do país, não incluídos aí motoristas autônomos1. Destes, quase 1 milhão são motoristas de veículos de cargas, cerca de 2% do total de trabalhadores e trabalhadoras.  Um estudo do Fórum Internacional do Transporte projeta uma eliminação na Europa e Estados Unidos de 2 milhões a 4,4 milhões de um total de 6,5 empregos de motoristas de caminhão estimados para 2030 caso haja uma rápida adoção da tecnologia de caminhões autônomos2.

Neste momento, poderá surgir um embate centrado na adoção ou não da nova tecnologia. Podemos supor que temos mais ou menos bem definidos aqueles que ocuparão o campo da defesa do emprego, e aqueles que ocuparão o campo da defesa da eficiência. Acontece que contrapor a defesa dos trabalhadores e trabalhadoras à eficiência é travar um debate limitado, reduzindo-o ao embate unidimensional da esquerda x direita. Em ambos os casos há uma dimensão oculta que, na sua explicitação, permite o compromisso entre dois campos aparentemente inconciliáveis3.

No caso de adoção de novas tecnologias que resultam na redução de mão de obra, a dimensão oculta é a da distribuição de renda – este é o argumento que apresento no texto “Vamos falar sobre colheres, pás e teares4.

Considerando agora a distribuição de renda, podemos definir espaços e realidades alternativas para a introdução de novas tecnologias, considerando a pergunta original,  a. Serão aplicadas restrições à adoção das novas tecnologias? e uma nova pergunta: b. Como serão distribuídos os ganhos de eficiência obtidos pelas novas tecnologias?

Temos um primeiro caso, o da não adoção das novas tecnologias. Em primeiro momento, tudo fica como antes. Com o passar do tempo, o país vai tomando cara de museu. Já experimentaram andar de Kombi recentemente? Assim como os carros dos anos 50 em Cuba, talvez o país se torne destino turístico que as pessoas visitem para ver o lugar onde as pessoas ainda dirigem caminhões. Mas ainda que a indústria do turismo eventualmente possa ter um pequeno ganho, todo o restante da economia sofreria na competição com outros países. Atrasado e pobre seria o nosso destino.

A segunda opção seria o da liberação de novas tecnologias, sem que isto seja acompanhado de ações para distribuir os ganhos de eficiência advindos da sua adoção. Este cenário não é, a princípio, apocalíptico. Não veríamos, da noite para o dia, quase 2 milhões de pessoas desempregadas. A substituição de motoristas por veículos autônomos aconteceria pouco a pouco, dependendo da construção de infraestrutura de apoio, de adaptação das tecnologias às condições locais, e, sobretudo da viabilidade econômica da substituição. Uma startup promete um kit de conversão de caminhões por 30 mil dólares5. Esta substituição iniciaria pelos trabalhadores e trabalhadoras mais bem remunerados. Essa massa de indivíduos qualificados competiria então pelos decrescentes postos restantes, jogando os salários para baixo. Esta dinâmica seguiria até o momento no qual deixa de ser vantagem a adoção dos caminhões autônomos.

Para o autor Ryan Avent6, não é preciso de uma máquina do tempo para observar esta dinâmica em ação no futuro. Ela já realidade na comparação entre países desenvolvidos e países nem tão desenvolvidos. Em uma rápida viagem aos Estados Unidos nos deparamos com várias máquinas, como, por exemplo, tratores cortadores de grama, cuja baixa presença no Brasil pode ser  explicada parcialmente por um carga tributária centrada no consumo, mas que é sobretudo explicada pela presença de mão de obra barata disponível para realizar o trabalho que máquina substituiria.

O espaço determinado pela liberação de novas tecnologias sem que sejam tomadas medidas para distribuição de renda é um espaço onde há uma manutenção do nosso status quo, com grande desigualdade, baixos salários e baixa intensidade tecnológica.

Até aqui temos delimitado o debate mais entrincheirado e raso na dicotomia entre esquerda e direita. Mas se a liberação, ou melhor ainda, se a liberação, o incentivo e o apoio à adoção de novas tecnologias vierem casados com medidas que assegurem que os ganhos de eficiência e das riquezas advindas da conquista de novos mercados sejam disseminados ao longo da sociedade, podemos imaginar uma realidade onde temos eficiência e bem estar social.

Ao invés do ciclo vicioso que parece ser o destino que estamos no momento direcionados, a julgar pela direção das reformas em curso no país, uma realidade que contemple trabalhadores bem remunerados é uma realidade que estimula a adoção de novas tecnologias e a inovação. Neste ciclo virtuoso, altos salários viabilizam a adoção de novas tecnologias, os ganhos de eficiência e a novidade proporcionadas pela adoção de novas tecnologias tornam os produtos e serviços competitivos e atraentes, os ganhos advindos da competitividade são distribuídos ao longo da sociedade, e, como os salários mantêm-se elevados, o ciclo se repete, com ganhos para todos ao longo do caminho.

Existem algumas propostas para a distribuição, defendidas por Avent e outros autores que têm lidado com a questão da desigualdade crescente nas economias desenvolvidas: Alguns defendem a (i) realização de investimentos volumosos em infra-estrutura, atacando  ao mesmo tempo a desigualdade e o envelhecimento da infraestruturas dos países que sofrem a um par de décadas as consequências do consenso de Washington. Outros recuperam a visão de Keynes em prol de uma (ii) semana de trabalho de 15 horas. Há ainda a possibilidade de intervenção no mercado imobiliário.  O mercado imobiliário tem aparecido como grande vilão da concentração de renda. Algumas propostas defendem tanto (iii) maior taxação de ativos ativos imobiliários quanto (iv) a eliminação de restrições de construção nos grandes centros urbanos. Há ainda uma crescente discussão a respeito da adoção de programas de (v) renda básica universal.

Um alternativa que gostaria de ver desenvolvida é a de períodos sabáticos disponíveis para qualquer trabalhador.  O  designer Stefan Sagmeister, por exemplo, fecha seu escritório por um ano a cada sete, com grandes retornos para a qualidade do que a empresa produz7.

Quais das soluções a serem adotadas é uma longa e complexa discussão, que deve levar em conta o fato de que tais propostas não são incompatíveis entre si e podem ter um efeito de reforço mútuo.

 

Alcino – up into the concert #flickr https://flic.kr/p/6bqH1 Attribution-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-SA 2.0)

 

O importante é lutarmos para construir um espaço onde os avanços no conhecimento alcançados pela humanidade propiciem a construção de uma sociedade harmônica e feliz para todos e todas.

 

1. Dados da RAIS. Vínculos ativos em 31/12/2015
2. Managing the Transition to Driverless Road Freight Transport, ITF/OECD, 2017
3.  Em seu livro “O Quadrante de Pasteur”, fundamental na discussão da política de ciência, tecnologia e inovação, Donald Stokes nos mostra como a classificação da pesquisa científica como básica ou aplicada esconde uma realidade mais rica e pode limitar a nossa ação. Stokes argumenta que uma pesquisa pode, e muitas vezes, deve, ser aplicada e básica ao mesmo tempo, como fazia Pasteur. Pasteur era influenciado por questões de uso, no entanto ia fundo nas suas pesquisas, ampliando de forma significativa as fronteiras do conhecimento. Na análise, Stokes usa duas dimensões para definir quatro quadrantes possíveis para a pesquisa.
4. versão de About spoons, shovels and looms, 2014 – http://ascoisas.com/data/2016/12/vamos-falar-sobre-colheres-pas-e-teares/ http://ascoisas.com/data/2014/03/about-spoons-shovels-and-looms/
5. https://www.wired.com/2016/05/otto-retrofit-autonomous-self-driving-trucks/
6. AVENT, Ryan. The Wealth of Humans: Work, Power, and Status in the Twenty-first Century. St. Martin’s Press, 2016. – O livro de Avent faz a defesa apresentada aqui da relação entre trabalho e adoção de novas tecnologias, colocando elegantemente a discussão no contexto da geração de riqueza neste início de século XXI.
7. TED Talks – the power of time off

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