Retidão e Dúvida

René Magritte, The Son of Man, 1964, Restored by Shimon D. Yanow

Sua vida era o teatro. Decidiu que iria perfeitamente desempenhar o papel que acreditava dele ser esperado. Ao longos dos anos foi ampliando o tempo dedicado à personagem, aos poucos abandonando outras possibilidades.

O cabelo reto, a gravata em paralelo às riscas da camisa, as palavras extraídas dos clássicos. Toda e qualquer criação era ofensa aos autores, aqueles outros, aqueles anteriores, da geração que tudo explicara e resolvera. Aqueles do tempo dos mistérios e das razões que não saberemos nunca, pois éramos, lá, meramente crianças, filhos esquecidos de gigantes.

O papel perfeito completa-se na audiência perfeita, e, à medida em que cada fio de cabelo embranquece e encaixa-se no lugar determinado, mais seleta torna-se a platéia. Um a um saem os assistentes, alienados por um espetáculo que não lhes diz respeito.

Até que, no monólogo triunfal final, resta apenas um na platéia, que já não pode aplaudir ou vaiar, que já não está lá, que já não pode dizer:

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