O acolhimento do espaço

 

Retiram-se as paredes e, pouco a pouco, a alma tímida como um pé livre do sapato apertado vai aventurando-se pela liberdade assustadora.

Irrestrita, expande-se pelo deserto de pessoas e de comodidades. alguns poucos, movem-se em silêncio, destino e alegrias comuns, desconhecidos de uma vida inteira. A beleza monumental em toda exuberância de um poder sereno os tornando únicos e unos e felizes.

O silêncio disponível quebrado pela necessidade de comunicar. onde antes estava a voz que buscava tão somente soterrar o barulho da cidade, onipresente e opressor, agora vem a voz que conecta e parece dizer num sorriso: olha, esta é a minha humanidade e eu a compartilho contigo.

As águas são frias, o calor traz o conforto de uma cafeína sublimemente extraída. Para tudo, enfim, a resposta de um corpo esquecido na cacofonia da vida. Novas células que lá sempre estiveram, referências que nos projetam e que devemos ultrapassar*.

A transposição do tempo em que levamos a nós e uns aos outros trás em si cada passo necessário. na realidade de trespassar distâncias por meios próprios, a verdade de não estarmos sós – lá onde o espaço para o acolhimento se faz, a nós por nós presenteado.

Roberto de Pinho

 

* “O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar” – Fernanda Montenegro recitando Simone Beauvoir