Classe Media Cansada

Classe Média
Max Gonzaga

Composição: Max Gonzaga

Sou classe média
Papagaio de todo telejornal
Eu acredito
Na imparcialidade da revista semanal
Sou classe média
Compro roupa e gasolina no cartão
Odeio “coletivos”
E vou de carro que comprei a prestação
Só pago impostos
Estou sempre no limite do meu cheque especial
Eu viajo pouco, no máximo um pacote cvc tri-anual
Mais eu “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Mas fico indignado com estado quando sou incomodado
Pelo pedinte esfomeado que me estende a mão
O pára-brisa ensaboado
É camelo, biju com bala
E as peripécias do artista malabarista do farol
Mas se o assalto é em moema
O assassinato é no “jardins”
A filha do executivo é estuprada até o fim
Ai a mídia manifesta a sua opinião regressa
De implantar pena de morte, ou reduzir a idade penal
E eu que sou bem informado concordo e faço passeata
Enquanto aumenta a audiência e a tiragem do jornal
Porque eu não “to nem ai”
Se o traficante é quem manda na favela
Eu não “to nem aqui”
Se morre gente ou tem enchente em itaquera
Eu quero é que se exploda a periferia toda
Toda tragédia só me importa quando bate em minha porta
Porque é mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida

Seres superiores

Ano Estelar 8564

A Santíssima Trindade materializou-se em humanidade. Depois da inviabilidade do Sistema Solar, nos dividimos em três arcas, cada qual com destino a uma próxima estrela. Cada qual com seus modelos e soluções. Não nos falamos, não trocamos mensagens. Nem mesmo sabemos se ainda são. Se um sistema falhar e exterminar uma das arcas, este sistema já não estará em uso nas demais. Se alguem, em uma das arcas tem alguma idéia brilhante, nós não saberemos e assim não correremos os riscos de sermos mortos por ela. Como aconteceu na velha Terra.

Estruturas, algoritmos, mercados e governo. Tudo diferente. Só não sei como seriam os demais. Todos os participantes do Projeto com acesso a informações de mais de uma arca fizeram votos e ficaram pra trás, aguardando a morte entre anéis de Saturno e monolitos de Júpiter.

Não conheço os demais, mas sempre acreditei na perfeição do nosso sistema. Seres superiores, especialmente talhados para a tarefa de dirigir nossa vida , geneticamente modificados para serem olhos e ouvidos e quase nada mais, vivem numa nave que nos escolta e nos observa. Sem contato conosco ou prazeres, a tudo tem acesso, tudo podem ver e escutar, e assim , regulam as nossas atividades. a produção de alimentos, o controle da qualidade do ar, o escalonamento de tarefas, as horas de sono permitidas, tudo isto cabe ao conselho supremo, que determina e nos deixa tranqüilos. A cada dia, pode-se viver com a certeza de que o pouco que dormi não foi para atender a interesses mesquinhos, dormi pouco pois isto é o melhor, cientificamente determinado, para a sobrevivência da nossa nobre arca.

Mas, de sua câmara, incapaz de sentir cheiros ou toque ou frio ou calor, eternamente sustentado e alimentado pelo liquido que o envolve, um supremo tremeu. Não era a primeira vez que ele deveria direcionar um ser humano para a morte. O espaço é um ambiente hostil. Estamos a 5 anos luz de casa e sem peças de reposição. Morre um, mas salvam-se os demais. A morte seria terrível, exposição ao de mais tóxico que nossa arca carrega. A beleza para sempre destruída. O seu tremor não fora pudor em relação à morte. Não faz parte do seu trabalho tê-lo. Cabe a ele decidir o melhor a fazer, imparcial, perfeito, eterno. E tremia por se saber, pela primeira vez, incapaz. Tremia de amor por aquela beleza de formas perfeitas. Conhecia cada canto dela. Tinha visto cada um dos seus banhos, conhecia todos os seus pelos. Sonhava com seu riso, morria com seu choro. E morta ela está, mas seu corpo preservado pelo frio, velada pelos grandes olhos do supremo. Ele, intocável, sobreviverá em sua nave até o fim dos seus dias, velando a perfeição congelada.

De nós, resto apenas eu. Os demais se foram de morte violenta, em nome de um amor que não era seu. Esquecidos por aquele que mais os conhecia.

Nina Simone – I Love You Porgy – 1962

Se algum dia você for capaz de me levar a um lugar onde tudo se apresenta possível, em que a felicidade do mundo está ao alcance das mãos, ao mesmo tempo em que uma imensa tristeza, uma tristeza que é saudade de uma perfeição que sempre nos escapa, me abraça e me deixa feliz como aquele que quase dorme e que sente o sol no rosto ao balançar na rede. Se algum dia você me levar a um país de sonhos que sabemos sonhar e que neles andamos, não para resolvê-los mas para segui-los e vivê-los. Se um dia me deixar num estado de tranqüila tensão, neste dia serás Nina Simone.

Mentindo para Crianças

Tenho todos os requisitos para escrever um grande livro de auto-ajuda sobre como educar crianças. Se fosse começar a escrevê-lo agora, certamente, no momento da publicação, daqui a um par de anos, o editor já poderia até colocar, numa orelha : O autor é “Doutor pela Universidade de São Paulo”, pouco importando o fato de que o mais perto que minha pesquisa do doutorado chega de uma criança é o fato de existir uma creche no campus, por onde passo, eventualmente, pela frente.

No entanto, o meu maior predicado para escrever o tal livro é não ter filho algum, nunca criei ou eduquei ninguém desde a mais tenra idade. Sem filhos posso manter o necessário distanciamento, bolar estratégias mirabolantes e escrevê-las sem culpa, sem nunca ter passado pelo constrangimento de tê-las visto falhar espetacularmente quando postas à prova. Posso criar regras e passos à vontade, sem sabê-los impossíveis ante a necessidade de pô-las em prática contra uma misteriosa criatura, um pequeno humano, a quem os pobres pais estão irremediávelmente atrelados, por laços de afeição, encantamento, obrigações e acúmulos de frustrações e exigências.

Neste livro, que nunca será escrito, haverá um capitulo inteiro dedicados à mentiras que os adultos contam às crianças. São várias e freqüentes e, geralmente desnecessárias ou burras. Do meu ponto de vista privilegiado, que me permite sempre estar descansado o suficiente para pensar numa abordagem inteligente, sou testemunha de mentiras dadas por preguiça ou costume, quando a verdade, um pouco mastigada, mas não alterada, seria mais que apropriada.

Poderia citar inúmeros exemplos e situações, mas tenho certeza que a rica experiência do meu leitor o levará aos casos concretos do que falo.

Mas além dos pequenos casos do cotidiano, temos as grandes mentiras, como escolhemos, como sociedade esconder a realidade das crianças. Me dá nojo a reação de parte da mídia e de políticos contra um livro de geografia que ousou dizer o óbvio para meninos da 6a série: o Rio de Janeiro encontra-se loteado pelo tráfico de drogas.

Também são várias as tentativas de coibir aulas de educação sexual na rede pública de ensino, tapando o sol com peneira e ignorando a nossa relativa precocidade sexual. As drogas também são envoltas num véu de mistérios que só aumenta, acredito, o seu consumo e danos do que se dados e informações concretas fossem divulgas, sem preconceitos.

Apesar de admirar muito a frase de John Stuart Mill sobre o erro de achar que todo conservador seja necessariamente estúpido, acredito que eles, os conservadores, com sua insistência em mentir para crianças podem torná-las estúpidas de fato, e conservadoras.