Drummond


Canção Amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Carlos Drummond de Andrade

apideiti: O fim das ditaduras


José Carlos Gomes, co-autor do artigo “Democracia, evolução e teoria do caos” da Revista Ciência Hoje fez os comentários abaixo sobre o post “O fim das ditaduras“, aqui deste blog:

Então não são apenas críticas aos “neo-evolucionistas”, tem também gente que compreende o mais simples, o óbvio ululante: a sociedade humana está mais conectada com os processos naturais do que o iluminismo poderia prever. E nunca antes como agora (para usar a pedagogia lulista) vai ficando tão claro que a democracia é a chave para a sustentabilidade dos sistemas políticos, econômicos… e naturais.

Lembro então Norberto Bobbio: “Numa coisa a direita e a esquerda se unem: o ódio pela democracia.”

Claro, projetos iluminados e autoritários são anaeróbicos, não suportam os arejamento democrático e não resistem à luz do sol. É por isso que mesmo quando contam com amplo apoio popular, insistem em agir à sorrelfa, criar inimigos inexistentes, promover a conspiração, instigar o crime e a violência… e finalmente trair o povo que lhe foi fiel.
Não suportam o debate, não suportam a crítica, não suportam a
transparência, não acreditam na sabedoria do povo, têm horror à
alternância… a alternância é tratada como crime lesa majestade.

Mas a alternância é a respiração da democracia. Sem ela, a democracia
sufoca.

José Carlos Gomes

Gritos e sussuros

Muitos escrevem entre uma silenciosa tensão. A vontade de gritar ao mundo: sou assim como você. Aceite-me. Mas olhando de perto, dizem, baixinho, sou assim como você, mas tenho um pouco a mais, sou um pouco diferente, um pouco insubstituível.

Noutros, a voz alta diz: sou o bizarro, não tenho nada deste mundo. O estrangeiro calado, o punk que cospe no chão. Mas, puxando pelo colarinho, tímida ou violentamente, dizem, num sopro: ei, Eu sou apenas, um pobre amador, apaixonado, como um outro Brasileiro qualquer.

pedindo a licença a seu Ingmar e a seu Antônio.

Requiem

No dia em que eu morrer, quero que ouçam Portishead

e que aprendam que só na dor há a cura.

No dia em que eu morrer, quero que toda declaração seja previamente escrita e lida por uma outra pessoa

e que aprendam na dor do outro a lidar com a sua própria dor.

No dia em que eu morrer, quero que queimem meu corpo e me espalhem no trajeto da Lancha da Carreira

e que aprendam a me ver entre Mar Grande e Salvador.

Não quero a presença de padre, rabino, monge ou pastor que nunca tenha tomado uma cerveja comigo

Não quero marca nesta terra além daquelas que deixei em vida

Não quero resumo ou epitáfio que limite numa frase aquilo que nem mesmo eu sei dizer quem fui.

Vendo Perfume

Gostaria de poder dizer “eu vejo perfumes”, in the fashion of “I see dead people”. Mas, é fato que não vejo perfumes. Minha debilitada visão é o meu sexto sentido.

Mas lia muito Perfume e vi Perfume, livro e filme. Acho o filme mais que competente ao retratar cheiros. Seja diretamente, como quando Baldini prova o “Amor & Psyche 2.0″ ou indiretamente, na reação das pessoas, como nas seqüencias finais.

No entanto, tendo lido o livro inúmeras vezes, me sinto no direito de fazer minhas adaptações.

A fotografia poderia ser mais difusa, impressionista. Não sei se em todo o filme, ou se apenas na visão de Jean-Baptiste. Entendo o desejo do diretor em valorizar a precisão do senso de Grenouille. Mas um ar um pouco etéreo não diminuiria a sua capacidade.

O mundo visto por Grenouille poderia e deveria ser diferente do real. As Coisas visualmente exuberantes calam-se no mundo dos cheiros. Muito do que se esconde dos olhos, foge para o mundo e anuncia-se com seu odor. As ruivas, vestidas no mundo real, nuas para ele.

Outros detalhes atrapalham esta minha visão purista: a primeira jovem estava muito longe dele no livro. Ela atravessa todo o fedor de Paris. Também não lembro de haver qualquer intercâmbio entre eles, qualquer contato anterior que não pelo seu cheiro.

Mas o que mais me incomodou foi a narração. Muito foi dito desnecessáriamente. Confesso que meu julgamento a este respeito é prejudicado pela leitura prévia. Mas ainda assim acho que as cenas eram boas o suficiente para dispensar o narrador em 90% das vezes. Certamente intromissão do produtor.

Bee: sorry, it could not wait. but I’m still waiting for yours.