Água !



Labirinto

Poema de Hermínio Bello de Carvalho

Acho bonito falar alemão.

Por isso, talvez, eu não queira aprender a falar alemão.

Seu eu falasse alemão

as pessoas iriam dizer, simplesmente, “ele fala alemão”

e aí perderia toda a graça.

A graça está em achar bonito falar alemão.

Por isso, às vezes,

eu deixo de fazer algumas coisas.

Deixo de dizer que te amo

porque dizer que te amo soaria como uma banalidade a mais

nesse mundo cheio de banalidades.

e onde habito eu, um poeta das banalidades

E simplesmente me calo, deixo a barba crescer

escrevo poemas para depois apagá-los de minha lembrança

e esqueço coisas que seriam inesquecíveis

simplesmente porque perdi a capacidade

de reter as coisas boas em minha memória.

Samsara

Todos os dias tento me reescrever a mim mesmo,
mas como fui escrito à caneta, não há borracha que dê jeito.

Resignado, rabisco em cima de mim todos os meus excessos.

Faço traços e curvas cada vez mais fortes até que não se distingua uma letra sequer.

Inutilizado o papel, digo:

agora, tudo vai ser diferente

Parto para a próxima folha do caderno, marcada profundamente por todos os meus caminhos, sulco fácil por onde escorrer a nova tinta.