Outras coisas: Metalinguagem


Seu texto veio a calhar justamente como o tipo de coisa que eu estava querendo ler. Curto, arte, sólido. Lembrei das coisas que eu escrevia. Me perguntei se você escrevia da mesma maneira. Lembro que as vezes escrevia verborragicamente. À medida que fui envelhecendo, perdi a naturalidade e escrevia com muito mais trabalho que inspiração. Escrevia algo raciocinando, procurando dizer com menos palavras. Pensei que talvez você tivesse escrito duas ou três frases e, pensando melhor, teria reduzido em apenas uma. E, satisfeito, desligou o monitor e foi dormir. (me refiro à última frase, que realmente me absorveu – a satisfação de uma frase bem escrita sempre me é muito fisiológica)

Fiquei imaginando há quanto tempo havia escrito aquilo, em que momento da vida. Se tinha observado, ou passado por aquilo.Alguém que lhe viu, ou você como um terceiro olho? Como, o quê, quando…? De quem, aquele olhar ? É uma cena, estou certa de que aquilo partiu de uma cena que você observou. E daria tudo para agarrar essa cena, como quando eu via fotos de gente que havia morrido há pouco tempo e ficava tentando agarrar o exato momento em que aqueles sorrisos das fotos se fecharam em azul. Tento pegar, como se corresse para salvar a vida de uma pessoa num sonho, correndo ao lado de uma cachoeira, somente para descobrir, ao acordar, que procuro salvar minha própria vida – e não consigo.

Fiquei encantada que haja alguém com essa sensibilidade tão perto de mim. Suspirei aliviada por dois segundos. É o tipo de coisas que eu escreveria e ninguém nunca entenderia, estou certa disso.Entao, eis que alguém se adianta, não só entende, como escreve antes de mim! Ufa.

beijos,

Sissi Blue


A importância do sagrado

Quase nada para mim é sagrado: esporte, política, religião, gosto musical e por a vai.

Isto aumenta em muito o risco que corro e incorro de ofender aqueles que guardam algum respeito ao que lhe é caro.

Para variar um pouco, estive do outro lado do muro no show de Stanley Jordan, praguejando aqueles que insistiam em ficar falando durante o show. Fiz uma mental note para nunca mais ficar contando piadas durante missas…

No dia a dia, alguns hábitos sagrados podem ser estorvo, mas podem ser muito úteis, como o hábito (arcaico, em tempos digitais) de transferir telefones para a agenda nova no final de ano.


Dentre os meus poucos hábitos sagrados, nada supera em santidade este mandamento:


Não deixarás o cinema antes do fim do filme.


Só o desobedeci 2 vezes, uma assistindo, de novo, História Sem Fim 2. Saí depois que a mocinha, a que estava ao meu lado, não a do filme, não correspondeu às minhas investidas.

A segunda, num Almodóvar, mas desta vez, o pecado valeu a pena, e olhe que era um Almodóvar.

Metalinguagem

Existe uma cegueira das coisas que eu sei. Por mais que tentemos, não conseguimos deixar de enxergar aquilo que já sabemos. Isto se apresenta como problema prático quando estou dando aula ou fazendo uma apresentação: como é que a aula ou apresentação é vista por aqueles que não conhecem do assunto ?

Às vezes a questão é trivial e para assunto mais cartesianos, é possível até desenvolver uma certa prática, acredito eu. Mas nem sempre é assim. Nos textos As coisas: olhar outro e As Coisas: Caminhos sou totalmente incapaz de perceber como é a percepção daquele que os lê sem tê-los escrito. Se é que esta percepção é única, e ela não é.

Para explicar um assunto, como loops infinitos, por exemplo, posso recorrer à minha memória do tempo em que não sabia o que era isto, e fazer o caminho reverso neste meu aprendizado, tentando coletar ao longo do caminho quais a informações foram úteis para fazer as conexões que me levaram a compreender o conceito em questão.

Mas para os dois textos citados, não existe um tempo em que eu não os conhecia. Eles surgiram segundo uma lei de formação, de um algoritmo, de um idéia que eu mesmo segui. Não posso olhá-los sem saber que lei é esta. Eu a escolhi, ela esta lá, me salta aos olhos. Por vezes acho que ela é evidente a todos os leitores, por vezes acredito que a sua descoberta é impossível. Os textos foram escritos um após o outro, durante uma aula em que a didática a tornava menos útil que a solitária leitura do hermético assunto num livro. Por pior que fosse.

Até o momento, são apenas três. “olhar outro” foi o primeiro. “As Coisas: Escolhas” foi o segundo e morreu depois de descansar um tempo na gaveta, como ensinava Drummond, e por fim “Caminhos”. Não sei se haverão mais. Saber qual a lógica que os une não implica que eu saiba de onde eles vêm e que possa ir lá buscá-los. Só desconfio que me são sussurrados pelas mesmas coisas que inspiram este blog.

Ontem, ouvi Stanley Jordan tocar Eleanor Rigby.

Talvez um título meio longo, mas já diz tudo. Não tenho mais palavras.

Por algum motivo, ao longo do show, vinham trechos de um texto, que reconheci mais tarde como sendo de Caetano :


Lembro com muito gosto o modo como ela se referia a ele. Pelo menos ela o fez uma vez e isso ficou marcado muito fundo, dizendo: caetano, venha ver o preto que você gosta. Isso de dizer o preto, sorrindo ternamente como ela o fazia, o fez, tinha, teve, tem, um sabor esquisito, que intensificava o encanto da arte e da personalidade do moço no vídeo.

Era como se se somasse àquilo que eu via e ouvia, uma outra graça, ou como se a confirmação da realidade daquela pessoa, dando-se assim na forma de uma benção, adensasse sua beleza.

Eu sentia a alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele, e por minha mãe saudar tudo isso de forma tão direta e tão transcendente. Era evidentemente um grande acontecimento a aparição dessa pessoa, e minha mãe festejava comigo a descoberta.” do livro “Verdade Tropical” de Caetano Veloso


Devo ter me identificado com alegria dele existir e a descoberta do que ele fez com a música.

O único ponto negativo do show, aqui em São Carlos, foi a profunda falta de educação de parte da platéia, que não parou de falar o tempo todo.

As coisas: olhar outro

Ele passa e olha através do vidro. Sei que me deseja. Nada o impede. Em 5 minutos poderia estar em seus olhos. Em 5 minutos poderia suavizar o mundo para ele. Mas não, ele prefere seguir. Prefere ? O que o amarra ? Por que deixa o sol franzir sua testa ?

Já quase vai, mas me olha. Se me tens, de mim se esquece, me torna satélite do seu ser. Mantido por uma atração invisível. Alguns movimentos se imprimem e ficam e repetem-se mesmo na minha momentânea ausência.

Mas num instante, fujo, num ciúme de outra atenção, num lapso bêbado, numa alegria que o leva a outro lugar, deixada para trás, recuso-me a gritar.

Assim, não mais estaremos juntos. Esta escolha nunca será minha. Se vai nada faço, se volta aceito.

Mas, nesta ausência, ganho importância, pouco se importa comigo, mas como pude escapa-lo, que deficiência sua não o deixou manter domínio sobre a mais inerte das coisas, como deixou fugir quem tem pernas para prender ? Como salvar o mundo se nisto não se conserta ? Como ter outras sabendo que um dia irá também perde-las, a mim, de novo.