A Espantosa Realidade Das Cousas

Fernando Pessoa

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro

Blogging on demand

Este é o primeiro texto deste blog que é feito sob encomenda. Gostaria de gastar todo ele falando sobre a beleza de textos feitos sob encomenda. Mas se o fizesse, não atenderia o pedido. Ainda volto ao assunto, talvez, quem sabe, um dia, mas não me despeço sem antes mencionar a beleza de Luiza, de Jobim, feita a pedido da Rede Globo.


Estou no segundo parágrafo e, para desespero de Camilo, o “cliente”, ainda não falei da importância de falar inglês. Mas a questão é clara, é tiro certo sobre qualquer aspecto que se analise:
Aprenda, fale, comunique-se e escreva em inglês. Já. Ontem.

Não dispondo de uma teoria unificadora ou de uma prosa capaz de juntar diversos aspectos, ou ainda de belos casos ou causos ilustrativos dos meus pontos de vista, troco estilo por clareza e defendo cada ponto separadamente. Leia os que lhe apetecerem.

Não existe vida na academia sem inglês – As principais conferências brasileiras, repito brasileiras, pelo menos em TI, aceitam artigos em inglês. Algumas delas só aceitam artigos e apresentações em inglês. Não preciso nem dizer que o material de ponta, seja ele feito nos EUA, Reino Unido ou na China está em inglês.

Treine a fala também. No último congresso que fui, aqui no Brasil, as apresentações eram necessariamente em inglês. No entanto, alguns palestrantes eram péssimos. Tenho certeza que só os entendia por eu ser brasileiro e estar acostumado com brasileiros falando inglês. Eu não entendia nada quando eram os mexicanos ou argentinos falando inglês (com exceções, entre representantes de todas as nacionalidades). Tenho certeza que os convidados estrangeiros não entendiam nada também. Mas é um começo.

É uma vantagem competitiva – Por enquanto. Se você está no mercado ou na academia, falar a língua do outro, além da obvia ampliação da sua área de atuação, reduz a possibilidade de erros e aumenta a sua produtividade. Já há espaço suficiente, no que quer que você faça, para cometer erros colossais. A língua desconhecida só potencializa.

Você pode não ser o mais rápido da turma, o mais brilhante, mas se você domina a língua do outro, pode ser a melhor opção. Não sou bom como Lulinha Paz & Amor nestas analogias de boleiros, mas o capitão do time não é o que mais faz gol, mas o que melhor se comunica.

Contatos facilitados – Conto aqui dois casos, facilmente transpostos para outros contextos. Resolvi, meio que do nada, aprender francês. Talvez tenha contado o fato de que cada vez mais gente fala inglês e o meu domínio da língua de Shakespeare já não basta pra garantir meu posto de melhorzinho entre as pessoas. Mas o fato é que, meu pouco conhecimento do francês foi o suficiente para causar uma boa impressão em um professor francês e garantir minha aceitação em um programa de doutorado na França.

Não defendo que o mérito foi exclusivo da minha [pobre] capacidade de jogar conversa fora na língua de Balzac, mas ajudou na transmissão das minhas idéias, e, sobretudo, mostrou minha boa vontade para com sua cultura, país etc e com a intenção de aprender.

Noutra ocasião, num congresso, o conferencista convidado ficava muita vezes só, no coffee break, disponível. Fui lá e fiz o contato. Aprendi muito e tenho mais alguém a quem consultar.

Rapport – Agora repito o tópico anterior para os adeptos da programação neurolingüística. Nela, é importante transmitir a mensagem no meio preferido pelo freguês, seja ele visual, cinestésico etc. É crença minha que para falantes de outras línguas, isto passa pelo uso da língua do outro.

O inglês não é mais a língua dos americanos – e nem a língua dos súditos da Rainha. Lingüistas já detectam influências no inglês vinda de falantes de outros países, que a utilizam, muitas vezes, como interface entre dois outros idiomas. É por ela que converso com um amigo alemão.

Se é bom para a Alemanha… – E falando em Alemanha, ainda que Caetano advogue que só é possível filosofar em Alemão, diversas universidades alemãs já oferecem cursos superiores parcialmente ou mesmo integralmente em inglês. Isto faz parte de um esforço do governo para atrair alunos estrangeiros. Para muitos destes cursos há disponibilidade de bolsa. Para os interessados, o governo financia cursos de alemão, mas o inglês é mais uma porta de entrada.

Serviços em inglês no Brasil – Como Camilo já demonstrou lá na sua esfera, há espaço para a prestação de serviços para o exterior, e não falamos, nem ele, nem eu, da indústria do turismo. Confiram os argumentos dele.

É bom para você – Sei que “É bom para você” é o supra-sumo da auto-ajuda, que fique claro que o que digo vale no contexto da minha experiência. Se 10% servir para você, estou no lucro. Mas acompanhando meu próprio aprendizado, acho que aprender outra língua é o Biotônico Fontoura, ou Viagra, para ser mais moderno, do cérebro: fortalece o raciocínio, expande horizontes, culturais ou de soluções. Aprender uma nova língua é necessariamente ver que As Coisas® podem ser diferentes. As diversas formas de aprendizado usualmente incluem contato com elementos da outra cultura. Por fim, acredito também que o próprio domínio do português seja beneficiado. Ver como são as estruturas e estratégias de outra língua facilita o reconhecimento das belas estruturas e estratégias do nosso bom, e nem tão velho, português.

Maravilhas da burocracia ( e da Internet )

Uma amiga faz um convite para o aniversário dela e estipula que faltas só serão toleradas mediante a apresentação do formulário D-37. Muito mais tolerante que eu, que repasso diretamente ao capeta o nome dos faltosos.

Estando distante e impossibilitado de comparecer, fui no Google procurar o tal formulário. Não acho que o formulário ao lado sirva, mas uma das mais de 400 mil páginas encontrada talvez tenha a resposta.

As Coisas: Caminhos

Aqui me puseram, não de maneira pensada ou premeditada. Aqui estou porque lá não servia. E lá estava desde sempre. Tudo mudou e aqui permaneci.
Por capricho, preferia estar um pouco mais à frente, um pouco mais cheio de luz, um pouco mais no fluxo das gentes.

Capricho, pois aquele que não firma sua posição, é expelido da luz e do fluxo, lenta e inexoravelmente às sombras.

Mas nem todos seguem os caminhos traçados. E foi assim que ela pisou em mim. Não reagi, mantive-me inerte à pressão. Meu chão cedeu um pouco, ferindo-se para acomodar a minha resistência ao mudar.


Sentindo, voltou ao caminho, mas não a mesma. Seu corpo espelhava o seu contato comigo. Não fora direto, ainda que me apresente nú para a vida, ela cerca-se de camadas. Ainda assim, este contato lembrava nela a existência de algo. O inerte lembrando da existência da carne. O inchaço reclamando sangue. O esquecido posto em vida pelo imóvel. Primeiro passo que deu para dar adeus a si e começar a viver.

Havendo democracia, há esperança

Contrariando o que podíamos esperar sobre corrpução e eleição, a Revista Época desta semana dá destaque ao trabalho de Claudio Ferraz (IPEA) e Frederico Finan (University of California, Berkeley).

Com dados da CGU e da eleição de prefeitos, eles provam (i.e. há correlação estatistica) que o eleitor pune os políticos envolvidos em irregularidades. Mostram também que políticos em busca de reeleição ou de outros cargos tendem a ser menos corruptos. Defende-se também a tese de que o brasileiro é menos tolerante à corrupção que italianos, japoneses ou americanos.

Como cita a revista, a eleição de Collor e Maluf parecem contrariar os achados, mas, como também defende a revista, ambos concorreram a cargos de menor destaque que no passado.

Outros podem argumentar, no entanto, que a reeleição de Lula em meio a dossiês e mensalões invalida os achados. Pode ser, mas é importante lembrar que a eleição não foi um plebiscito, Lula ou não Lula, mas que havia um oponente não desprovido dos seus próprios esqueletos no armário e de um partido considerado pela população como responsável pelo sumiço do dinheiro da privatização.

O processo é lento, ainda há sobrevida de politicos corruptos, mas a evolução parece certa. No momento em que houver massa crítica, a coisa acelera.

O fim das ditaduras

No artigo “Democracia, evolução e teoria do caos” da Revista Ciência Hoje, Prof. Alneu do ICMC-USP e seus colegas usam algumas técnicas de algum modo relacionadas à computação para defender a democracia, em função da diversidade que ela proporciona. Esta diversidade seria fundamental para a sobrevivência de sistemas complexos, como são os países.

Pensando no longo prazo, como fazem os autores, podemos enxergar uma ditadura sempre chegando ao fim dada a sua relação de dependência a um ambiente de baixa diversidade. Numa ditadura, a opinião divergente é indesejada e perseguida, pois representa, no curto prazo, uma ameaça ao Status Quo.

Acontece que, estando os autores do artigo corretos, a diversidade presente nestas opiniões divergentes, podem vir a ser as necessárias à sobrevivência do sistema quando as condições mudarem, e elas mudam.

Pode-se imaginar um cenário em que um regime cada vez mais frágil às variações do ambiente, resolva recorrer ainda mais à repressão, diminuido ainda mais a sua capacidade de reagir ao novo e aumentando ainda mais a sua sanha por calar as vozes discordantes. Nesta espiral descendente, o líder isola-se num mundo cada vez mais fechado, irreal e difícil de manter. Este processo, como eu o enxergo, está magnificamente retratado no filme A Queda, sobre os últimos dias de Hitler, no bunker de Berlim.