A vida em tempo de novela

Neste esporte nacional que é assistir novelas, sempre me pareceram estranhos aqueles momentos “3 anos depois…” No entanto, alguns filmes também usam este tipo de expediente narrativo, mas neles, o uso não me parece pouco natural.

Para uma amiga, que me alertou para a questão, a vida é assim mesmo, com um tempo de mudar e um tempo de permanecer, com a breve tempestade entre longas calmarias, estas iguais em constância e duração, mas muitas vezes difentes na essência, transformada pela tormenta.

Mas se a vida é assim, por que estranhar a calmaria na novela ? Talvez, por mostrar muitas vidas, muitas estórias, o lapso de tempo na novela exige que todas elas cheguem e saiam da calmaria em sincronia. Num filme, a narrativa, via de regra, é uma só, sendo assim mais factível a pausa. Exceto, talvez num filme de Robert Altman.

Strogonoff de atum

Atendendo a pedidos, um momento Ana Maria Braga.

Strogonoff de atum

2 colheres de sopa de cebola ralada
2 colheres de sopa de azeite de oliva
3 tomates sem pele e sementes picados
500ml de creme de leite fresco
2 latas de atum
1/2 xícara de conhaque, ou cachaça
sal a gosto
1 colher de sopa de catchup
1 colher de chá de molho inglês
1 colher de chá de mostarda

Preparo

1. Doure a cebola no azeite. Acrescente os tomates e deixe até desmancharem. Junte o creme de leite e deixe reduzir um pouco.

2. Acrescente o atum, o conhaque e aqueça bem. junte o sal, o catchup, o molho inglês e a mostarda. Misture e sirva.

Sirva com arroz e batata palha.

Adaptado de 50 Receitas do Mar por Olivier Anquier, Atum Gomes da Costa.

Quando o morno não resolve

Tudo que um autor de livros de auto-ajuda não quer que você saiba é a regra de ouro das frases de efeito:

nenhuma regra funciona o tempo todo, nem esta

Pra quem gosta de lógica, por traz disto está o teorema da incompletude de Gödel, resumidamente: Se um sistema é consistente, é incompleto, se é completo, é inconsistente.

No mundo das citações, gosto quando encontro belos exemplos de maravilhosas frases que nos levam a direções opostas. Enquanto Nietzsche me fornece “tu, e só tu, podes construir as pontes pelas quais deves passar”, outros autores atacam com variações de “só um idiota aprende pela experiência, os espertos aprendem pelos erros dos outros”. A beleza está no contexto, na sua identificação e na aplicação, nenhuma regra funciona o tempo todo.

Nem mesmo Buda escapa da bela crueldade de Gödel: A sabedoria está no caminho do meio. Não quero café morno e cerveja menos ainda. O radicalismo, o full commitment que os norte americanos tanto gostam pode ser a unica opção.

Na questão das drogas no Brasil, um torto caminho do meio nos coloca no pior dos mundos: A Lei 7134 aprovada pelo Senado em 2004, determina o fim da pena de prisão para usuários e dependentes de drogas. Ou seja, liberamos a demanda e tentamos lutar contra a oferta. Como disse o Presidente Jed Bartlet: Estamos financiando ambos os lados da guerra.

Aqui, são soluções melhores tanto o chá quente quanto o chá gelado. Se você acredita em Prêmios Nobel em Economia, deve defender a legalização das drogas, confiando nos seus cálculos de que o tratamento dos abusos e danos à saúde serão muito mais baratos que os gastos correntes em repressão, além de facilitar o acesso ao usuário e disciplinar o comércio. Se no entanto, sua praia é a proibição, que ela valha para todos e que seja cruel com o consumidor, estancando assim a fonte de recursos para o comércio ilegal.

Uma discussão da questão do ponto de vista econômico pode ser encontrada no livro Freakonomics: o Lado Oculto e Inesperado de Tudo que nos Afeta (STEVEN D. LEVITT e STEPHEN J. DUBNER ), atualmente na minha fila de livros a espera de serem lidos.

Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Preso à minha classe e a algumas roupas,

vou de branco pela rua cizenta.

Melancolias, mercadorias, espreitam-me.

Devo seguir até o enjôo?

Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre

fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.

O sol consola os doentes e não os renova.

As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema

resolvido, sequer colocado.

Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam pra casa.

Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.

Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Aprendendo a datilografar

Pode-se dizer que cachorro velho não aprende truque novo, mas decidi aprender a datilografar como se deve. Digo datilografar e não digitar, pois, para mim, este negocio de digitar com todos os dedos é coisa do século passado.

De todas as outras vezes que pensei em aprender a digitar, a impressão de que meu catar milho já era muito mais rápido do que tentar usar todos os dedos sempre me desestimulou.

Mas agora a curiosidade de saber se esta impressão estava correta e de saber como funciona esta técnica me fez ir adiante.

De fato, após um curso online de digitação, fiz um teste e, quando usei todos os dedos, fui avaliado como beginner, mas quando catei milho, fui avaliado como advanced.

Uma coisa me surprendeu, no entanto, mesmo com a vantagem de mais de 15 anos de experiência, eu errei menos com a nova técnica. Me parece que, com a prática, a velocidade aumenta sem perda de precisão.

Levei umas três vezes mais tempo para escrever esta nota que de costume, mas foi uma boa prática. Pelo menos acho que não digitei nada errado.