A ignorância criativa

Igor, (único) leitor fiel deste blog, sabe que, no seu início, está claro o descompromisso com a citação e com a prova. Ou seja, nada aqui dito segue os rigores de uma busca científica, de uma pesquisa aprofundada. Sem no entanto incorrer, espero, na simples palpitaria.

Saber pode ser fardo na criação. A complexidade do mundo é tamanha que facilmente ficamos presos numa rede de “não podes” e “é impossíveis”. No livro o “Último Teorema de Fermat“, o autor relata que nenhum conhecimento importante na matemática foi formulado por alguém com mais de 30 anos, com exceção da própria demonstração moderna do último teorema de Fermat. Sua justificativa, pelo que lembro, é que o tamanho de regras, caminhos e conhecimento acumulado por qualquer matemático aos trinta anos é um emaranhado tamanho que impede qualquer inovação. Pode ser que simplesmente, os filhos, os gatos e todas as outras coisas que lhe cercam aos 30+ anos sejam o problema. Mas que a idéia dele é mais charmosa, ela é.

Por outro lado, como me disse certa vez Camilo, para todo problema complicado, existe uma solução simples e errada. O mundo não é plano e isto já é dor de cabeça suficiente. No limite, temos a vestal de Pope:

207 How happy is the blameless vestal’s lot!
208 The world forgetting, by the world forgot.
209 Eternal sunshine of the spotless mind!
210 Each pray’r accepted, and each wish resign’d;

Mesmo antes de ver o filme que homenageia o verso de Pope, sempre pensei como seria bom esquecer as coisas, para ver um filme de novo, pela primeira vez, ler um livro, fazer novas conexões, fora dos caminhos desgastados da nossa mente.

Os programas voltados à qualidade total e à solução de problemas na esfera empresarial, incluem, de uma forma ou de outra, uma etapa de libertação de amarras que podem esconder a solução de um problema. A mais difundida delas, o brainstorming tem exatamente este princípio, muito bem defendido por Jean Cocteau:

Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.

Livre de restrições, o pensamento pode caminhar à solução. Com a Internet, este processo pode ser feito em conjunto, com os ignorantes criativos provendo as sementes para aqueles mais informados, como ocorreu com o Nassif.

Pé no atraso

Depois do futebol, temos um grande apego à burocracia. Adoramos carteiras, cartórios e conselhos profissionais.

O início do texto, lá em cima, pode até ser simpático, evocar o mito do bom selvagem brasileiro, o barnabé qua mata o tempo (e o serviço) na fila para “autenticar” uns documentos. Mas, não creio nisto. Para mim, a verdade está muito mais em meia dúzia de privilegiados que sugam recursos dos país, nos tornam ineficientes e nos devolvem nada.

Aqui, no interior de São Paulo, reconheço uma firma em aproximadamente 3 minutos. Na Bahia, é preciso reservar uma manhã, fazer uma reza forte e contar com o bom humor do PM de plantão, que lhe olha com cara de “cuidado, senão vai ser preso por desacato”. Não que o desenvolvimento (relativo) de SP se deva exclusivamente à eficiência dos seus cartórios*, mas acho um bom termômetro.

Pior que cartórios ineficientes são os conselhos profissionais. Salvo poucas exceções, não nos servem para nada. Tive uma pendenga com um deles, mas minha antipatia é anterior ao imbróglio. A única preocupação destes caça-níqueis é com carimbos e autenticações. Carimbo de um diploma e a autenticação do pagamento da anuidade. Sendo que este segundo, para os conselhos, vale muito mais.

Os conselhos gozam hoje de uma posição legal que é inconcebível para uma democracia: contam com fonte de renda pública, compulsória e não estão seguer sujeitos ao tribunal de contas. Voltamos às monarquias absolutistas… (sobre esta questão, ver texto do Prof. José Pastore). Pior, uma monarquia absolutista escravocrata: o pobre infeliz que resolver se inscrever num deles fica obrigado até a morte a dele fazer parte, e, claro, pagar a tal taxa….

Se ruins em sociedades menos desenvolvidas, os conselhos são piores ainda em economias mais elaboradas. As relações e necessidades são complexas, exigindo muitas vezes visões pouco ortodoxas e, assim como numa floresta, a diversidade garante a sobrevivência. Para ficar num exemplo já batido: quem deve ser o comentarista de economia de um jornal, o jornalista ou o economista ?

E antes que alguem venha me dizer que eles zelam pelo bom exercício da profissão, lembro que projeto do prédio Palace II, aquele que caiu no Rio de Janeiro, foi aprovado pelo CREA, que salvo engano, lavou as mãos, como Pilatos.

* conheço dois cartorios em SP, igualmente eficientes. Conheço alguns na BA, todos eles me proporcionaram longos momentos que dediquei a leitura (talvez devesse agradecer). Desta pequena amostragem, faço meu julgamento.

Discurso Mestrado

Discurso de Titulação – Mestrado em Regulação da Indústria de Energia – UNIFACS – 30 de Maio de 2003

Há algum tempo, assisti uma palestra, talvez seja melhor dizer discurso, de um dirigente de uma agência reguladora de um grande país da América do Sul. Como não foram poucos os representantes de agências que participaram da formação da nossa turma, posso ficar tranqüilo que a identidade do palestrante será preservada. Nesta palestra, dirigida aos funcionários da agência, foi traçado um perfil do regulador. Era tão fantástica a criatura descrita, que eu não seria capaz de reproduzir nem um quinto do tal discurso.

Estes seres perfeitos, capazes de habitar apenas no Olimpo, ou quem sabe, Brasília, deveriam, simultaneamente preocupar-se com os aspectos técnicos, econômicos, legais, sociais, ambientais, financeiros e culturais dos problemas enfrentados. Sempre agradando a gregos e troianos, consumidores e concessionários. Isto para não falar na conduta pessoal, pois eles deveriam ser ausentes de vícios, incapazes de cometer erros.


Tudo seria perfeito naquela tarde de sol no Olimpo, se não estivessem estes semi-deuses ocupados da tarefa de regular a vida de todos nós, pobres mortais. Me pareceu muito errado e estranho que estes seres perfeitos fossem capazes de regular mercados e relações sociais que são muitas vezes imperfeitas, quase sempre desiguais e algumas vezes, mas até do que deveriam ser, injustas. Relações que são antes de tudo Mutáveis.

A confirmação desta minha suspeita ocorreu algum tempo depois, quando já estava numa aula do Mestrado em Regulação da Indústria de Energia. Nesta aula, um dos moradores do Olimpo, a convite de um de nossos professores, falava de o quanto seria oportuno que empresas de todo o país, passassem a apresentar suas faturas de forma padronizada, provavelmente em preto e branco, cheia de códigos. Assim, seria mais fácil, para ele e seus técnicos analisar as mesmas, quando necessário. Estamos falando em interferir na rotina de milhões de consumidores, de impedir inovações, como, por exemplo, colocar uma estória em quadrinho educativa, ou usar cores que agradem aquela região, para facilitar a vida de meia dúzia de técnicos. Se este pensamento se aplica a um detalhe como este, o que dizer de outras questões ?

Mas hoje, felizmente, estamos aqui para a titulação não de meia dúzia de técnicos, mas de 12 seres humanos, logo seremos 14, completos com suas qualidades e defeitos. E para ficar nas qualidades, já que tivemos mais de 2 anos para conhecer os defeitos uns dos outros, falo na que é para mim e como já foi dito aqui, a maior qualidade desta turma e deste curso, desde a sua concepção, que é a sua diversidade.

Se podemos casar megabyte com megawatt, queda de tensão com alínea segunda, petróleo e seqüestro de carbono, é porque somos um grupo composto de arquiteto, economistas, muitos engenheiros eletricistas, analista de sistemas, químicos industriais, engenheiro químico e até engenheiro naval. Certa vez, conversando com Dr. Afonso Henriques, engenheiro eletricista, doutor em engenharia elétrica, na época diretor da ANEEL, disse-lhe que havia muitos engenheiros da diretoria da agência. Para o meu espanto, até ele concordou.

E foi através da correlação de forças desta turma toda que formamos um time capaz, cada um a seu tempo, de observar cada um dos aspectos necessários à hercúlea tarefa da regulação. E olhe que os trabalhos foram mais que os apenas 12 do Hércules original. Falamos desde protocolo de Kyoto até termodinâmica e achamos algo ou até muita coisa no meio do caminho.

Trabalhos estes pedidos por professores tão diversos como nós mesmos. Temos desde a seriedade amiga de Paulo Rocha e suas temíveis equações de balanço de poço até a gargalhada e o humor britânico de Osvaldo Soliano.

Tivemos também relutantes moradores do Olimpo, como é o caso do nosso Tanure, que sempre que pode volta a esta cidade, para renovar as idéias, as suas, mas principalmente, as nossas. Professores como a professora Olívia, que com todo carinho buscou nivelar o conhecimento de uma turma de origem tão diversa.

Ou ainda, o nosso professor de direito, Honorato, advogado, que ao contrário de todas as nossas expectativas, e como vocês puderam ver, era um dos mais brincalhões, e ouso dizer, dos mais gaiatos, e, também por isto, um dos mais queridos.

E deste caldeirão, que começou como turma, teve que virar time, eis que surge uma equipe, que continua unida, sob este teto. Isto é possível, pela visão dos polivalentes James e André, e hoje orquestrado pelo onipresente Ricardo e sua equipe : Andréia, Carol, Roberta, Letícia. Hoje, mais da metade dos que estão recebendo seus títulos trabalham na Universidade Salvador, pesquisando e ensinando, sabendo utilizar as habilidades mútuas e a trabalhar juntos, dando sentido e uso ao termo colegas.

Colegas que junto comigo recebem o diploma hoje, colegas como Normando e Ana Cristina que logo estarão recebendo os seus, e colegas como o líder de nossa turma, Jorge Ramalho, que por um motivo ou outro não terminaram o mestrado, mas que espero ver de volta nesta casa. A eles, obrigado pela companhia neste processo, e todos vocês, muito obrigado pela atenção.

Roberto Pinho, Mestre em Regulação da Indústria de Energia.

As coisas – Jorge Luis Borges

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

versão original: aqui

Pequenas Violências

©


Somos muito mais sensíveis às pequenas violências concentradas do que às grandes violências diluídas. Somos muito mais sensíveis ao ônibus que mata 20 no acidente dos que aos 35 mil que morrem silenciosamente no nosso trânsito ao longo de um ano. Se 5 jovens do Leblon morrem em um carro, assunto do Fantátisco. Só aí, quando jovens dourados são vítimas, é que passamos uma semana enxergando o problema. Só aí percebemos que a cada hora 4 pessoas morrem no Brasil em acidentes de trânsito, todos as semanas, todos os dias.


Não sei até que ponto somos naturalmente sensíveis a estes eventos, ou se isto é reflexo da visão da mídia, indústria de novidades. Como dizia o Padre Antônio Vieira, Demócrito ria sempre, logo não ria. O cotidiano, por mais brutal que seja, não é notícia.

Nos jovens mortos do fantástico somam-se dois efeitos para a atenção da mídia: terem morrido 5 num só acidente e serem moradores do “andar de cima”. Serem eles, o retrato dos filhos, sobrinhos e amigos daqueles que fazem o Fantástico. Bastam pouco mais de 2 horas para que 5 jovens do “andar de baixo” morram vítimas de arma de fogo, neste mesmo Brasil. No mesmo Rio de Janeiro, morrem 8 vezes mais jovens por arma de fogo que em Israel e na Palestina, juntos.

Do discurso inflamado da Senadora Heloísa Helena, gosto do paralelo que ela faz entre a violência pontual e a violência cotidiana:

No dia que eu perder tolerância com meu filho agredido, passo a não ter tolerância com os filhos da pobreza agredidos também. No dia que perder a possibilidade de me indignar vendo a dor e a miséria na minha casa, eu perco com os outros também.

E neste momento, enquanto fecho esta entrada no blog, o Fantástico celebra o 11 de Setembro, onde 3000 moradores do “andar de cima” morreram. Menos de 10% entre os mortos do Iraque desde a invasão pelos EUA.

© foto: S.i.s.s.i & Igor A. Y G. @ UFScar, São Carlos, SP, 2006

Carta a um jovem bacharel em direito

Depois que FHC remexeu a memória de Rilke e lançou Cartas A Um Jovem Politico, me animei a escrever o texto abaixo para um primo que está graduando-se hoje.


Carta a um jovem bacharel em Direito

Não gosto da sua profissão.

Mas este é um desgosto com raízes no apreço. Explico. Quando se espera muito de alguém ou de algo, quando você vê todo o potencial de uma pessoa, mas ela não a realiza, dái surge o meu desgoto.

A justiça é o alicerce de uma sociedade. À justiça cabe a responsabilidade de manter o tecido social, de garantir a hamornia entre as relações humanas, de acolher os fracos e nos libertar das leis da selva.

Não é isto que vemos, não é isto que sentimos, no Brasil. Não me protege das injustiças, não pune os poderosos, aliena a maioria, sempre preocupada com seus interesses mesquinhos ou princípios utópicos.

O advogado, talvez mais do que qualquer outra pofissão, deve estar ao lado do povo, nunca acima. Tenho, eu, a desculpa de viver no nível das informações e dos computadores. Têm, os médicos, a desculpa de buscar um necessário distânciamento para com o paciente. A matéria do direito é a vida do povo e suas ferramentas a língua e a lógica.

Mas, o que se vê ?

Seres olímpicos, intocáveis.

Quando quero me defender sozinho em um tribunal, não posso. Não sou considerado capaz de responder por mim, sou forçado à tutela de um advogado.

Quando escrevo esta carta, tenho medo de ferir os brios de algum “Doutor” e sofrer processo. Não há nada melhor a fazer do processar o porteiro que não chamou o juíz de “Doutor” ?

Quando a sociedade quer impor revista a bandidos com carteira da OAB na visita em presídio, qual a resposta: indignação e atentado ao Estado de Direito. Não é assim que se constroi uma profissão. Vocês têm as ferramentas e o dever de melhorar a nossa sociedade, não podem se manchar em nome de princípios aplicáveis ao mundo das idéias e o que é pior, na defesa de alguns delinqüentes. Jogue estes delingüêntes no lixo e sigam em frente.

Não gosto da sua profissão. Mas acredito muito nela e acredito que você possa fazer diferença. Como disse Gandhi :

“Seja a mudança que você quer ver no mundo”

PS. Para uma longa discussão sobre o uso do tramento de Doutor para bachereis em direito, veja este tópico no blog do Doutor em Direito do Estado Prof. Túlio Lima Vianna : Advogado é Doutor ?

Discurso de Formatura

Estas semanas ando envolvido com a produção de textos ( além deste blog ). Lembrei que o meu discurso de formatura da graduação não estava mais online. Deve ser o meu texto de maior repercussão. Enquanto ele esteve online, a cada fim de semestre, eu recebia um ou dois emails pedindo ajuda na escrita de discursos de formatura.

Coloco ele aqui para que desfrute das rotinas de backup do Blogger.

Veja também: Discurso Mestrado

Discurso de Formatura – Graduação Análise de Sistemas – UNIFACS – 1995

Boa noite, Vou fazer uma pergunta, uma pergunta que poderia até ser considerada pouco apropriada para a ocasião. Na verdade, espero que não me arrependa em faze-la :

Por que estamos aqui, esta noite ?

Por que as senhoras estão usando, em sua maioria, sapatos de saltos altos, belos, porém desconfortáveis. E boa parte dos senhores, gravatas que apertam o pescoço de todos. Por que eu, e meus colegas, antes de faculdade e agora de profissão, vestimos estas roupas complicadas,
embora muitos de nós preferíssemos estar usando confortáveis bermudas, por quê ?

Mais ainda, por que minhas colegas, delicadamente discutiram, sem nenhuma exaltação, qual a cor da roupa que usariam neste evento ?

Por que enfrentamos um bom engarrafamento na hora da chegada ?

Todos estes sacrifícios para quê ?

Para a graduação de profissionais que não foram responsáveis por alimentar a raça humana ? Nós, analistas de sistemas, não alimentamos os nossos semelhantes, durante secas, invernos rigorosos ou mesmo guerras. Nós não descobrimos como plantar alimentos ou tratar animais, ou curar suas doenças, como fazem os agrônomos ou os veterinários. Sempre preocupados em como fornecer alimentos para uma população mundial cada vez maior. Nós também não construímos casas, pontes ou estradas. O produto do nosso trabalho não é algo palpável como o produto do trabalho de engenheiros e arquitetos. Não construímos casas que nos protegem do
tempo e de nós mesmos. Não construímos as casas que moldaram a nossa sociedade e a forma como nos relacionamos. A sociedade feudal não seria a mesma sem os castelos, assim como a nossa sociedade e nossas famílias não seriam as mesmas sem as nossas casas. Não construímos pontes que unem, ou separam povos. Pontes que juntaram cidades como em Buda e Peste
e separaram famílias quando destruídas. Não fizemos as estradas que moldaram impérios e economias. O império romano expandiu-se com estradas. Com elas, os romanos podiam movimentar exércitos e produtos, podendo, assim controlar desde a península ibérica até o Egito. Não salvamos vidas, não combatemos doenças. Não estivemos presentes quando o
homem luto contra pestes ou desenvolveu técnicas de cirurgia, que permitem, até, que sejamos mais bonitos. Não temos a satisfação dos obstetras de trazer novas vidas a este mundo ou de fazer bater um coração de alguém já falecido no peito de outra pessoa. Até criamos vírus. Talvez numa tentativa de também criar algo vivo.

Por outro lado, se não estivemos em quase todas as situações críticas da história da humanidade, não consigo imaginar muitos exemplos de eventos que não contarão com a nossa participação ou ajuda daqui para diante. É difícil imaginar o trabalho de qualquer um destes
profissionais, no mundo atual, sem a ajuda de computadores. E o nosso trabalho é justamente fazer com que pessoas e computadores trabalhem juntos, fazer com que estes tornem possíveis os objetivos daqueles. Se não produzimos alimentos, a informática já está em boa parte das
fazendas. Se não construímos casas, pontes e estradas, também moldamos a sociedade. Hoje, a Internet está trazendo o mundo para as nossas casas, destruindo paredes e ligando pessoas a distâncias que um engenheiro certamente se recusaria a construir uma ponte. Se o império romano foi construído graças ao seu domínio sobre os meios de transporte e as
estradas. Hoje, as superpotências são construídas com capacidade de movimentar informações, a matéria-prima do nosso trabalho. O mundo pós guerra fria, com certeza será conhecido como era da informação e nós seremos os seus engenheiros. Não salvamos vidas, mas trabalhamos em
conjunto com médicos, seja coletando dados estatísticos, seja, através do uso de inteligência artificial, criando sistemas especialistas capazes de substituir, em alguns casos, médicos reais. Bem, e os vírus que nós criamos, não matam ninguém.

Mas se hoje todos sabem e usam computadores, por que precisamos de analistas de sistemas ?

Se computadores são tão simples de usar, por que passar quatro anos em uma faculdade ?

Por que estudar matérias como Pesquisa Operacional, Contabilidade ou computador e sociedade, entre outras ?

Por que deixar de divertir-se e ter que fazer centenas trabalhos em grupo ? Muitas vezes perdendo todo o fim-de-semana ?

Por que todos nós fizemos estágio, mesmo que nosso currículo não exija ?

Por que buscamos e recebemos, por tantas vezes, o apoio de nossos pais ?

Por que nós reunirmos tantas vezes ? Foram tantas a reuniões que até inauguração de sofá, nós fizemos. Por que estudamos assuntos tão díspares como realidade virtual e redes de computadores, passando até por qualidade total. Por que estudamos tudo isto se qualquer um pode usar um computador ? Por que saímos de nossas salas, limpas e ar condicionadas e fomos a instituições de caridade, extremamente carentes, oferecer nossos serviços, gratuitamente ?

Fizemos tudo isto, por que qualquer um pode receitar uma aspirina, mas eu não faria uma operação de apendicite com a minha vizinha, por exemplo. Qualquer um pode armar uma barraca de camping, mas com certeza, Itaipu não foi feita por qualquer um. Qualquer um pode ir a um tribunal de pequenas causas para questões que envolvem até 10 salários mínimos,
mas em qualquer causa acima deste valor ou que não seja estritamente financeira, com certeza, será necessária a ajuda de um advogado. Qualquer um pode editar um texto, instalar uma planilha ou desenvolver um programa, mas com certeza, não será qualquer um que pode desenvolver sistemas de informações, projetar redes de computadores, se preocupar com o impacto da informática numa organização ou na sociedade, administrar bancos de dados corporativos ou muitas outras funções que um bacharel em ciência da computação sabe execer. Se hoje qualquer um pode usar um computador é por que muito trabalho foi feito em informática, é porque existe gente pesquisando e trabalhando com computadores.

É estratégico para o nosso país, manter-se na liderança desta tecnológia. Liderança que só é possível com estudo e pesquisa de qualidade.

Não, não estou em nada arrependido de ter perguntado porque estamos aqui hoje, e muito menos estaria arrependido de ter feito o curso que fiz. Sinto-me, agora, como Colombo partindo do porto de Palos, triste por deixar a sua terra, mas pronto para construir um novo mundo. Pelo menos, sempre poderei ver a todos na internet.

Perfume

Está sendo feito um filme sobre o livro “Perfume” de Patrick Süskind. Vi apenas o trailer mas não gostei. Missão impossível para o diretor. este livro me marcou muito. Lembro que vendeu bastante, mas não sei se o sentimento quanto a ele é tão entusiasmado quanto o meu. Fez para mim o que “O Estrangeiro” deve ter feito a muita gente.
A escolha da cena do trailer me incomodou muito também. Esta é uma cena em que mostrar é destruir o encanto do livro. Não há atriz neste mundo capaz de representar esta não-personagem do livro. Ela é como vc a quiser, a perfeição, a imagem de todo o desejo que vc já teve. a junção de tudo que já lhe atraiu em qualquer mulher, congelado no momento em que vc lê o livro. Talvez numa cena mais enevoada, porém com cores fortes…