O acolhimento do espaço

 

Retiram-se as paredes e, pouco a pouco, a alma tímida como um pé livre do sapato apertado vai aventurando-se pela liberdade assustadora.

Irrestrita, expande-se pelo deserto de pessoas e de comodidades. alguns poucos, movem-se em silêncio, destino e alegrias comuns, desconhecidos de uma vida inteira. A beleza monumental em toda exuberância de um poder sereno os tornando únicos e unos e felizes.

O silêncio disponível quebrado pela necessidade de comunicar. onde antes estava a voz que buscava tão somente soterrar o barulho da cidade, onipresente e opressor, agora vem a voz que conecta e parece dizer num sorriso: olha, esta é a minha humanidade e eu a compartilho contigo.

As águas são frias, o calor traz o conforto de uma cafeína sublimemente extraída. Para tudo, enfim, a resposta de um corpo esquecido na cacofonia da vida. Novas células que lá sempre estiveram, referências que nos projetam e que devemos ultrapassar*.

A transposição do tempo em que levamos a nós e uns aos outros trás em si cada passo necessário. na realidade de trespassar distâncias por meios próprios, a verdade de não estarmos sós – lá onde o espaço para o acolhimento se faz, a nós por nós presenteado.

Roberto de Pinho

 

* “O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar” – Fernanda Montenegro recitando Simone Beauvoir

algumas coisas não se alteram

Ano passado fui a um casamento em Paris.

Foi o primeiro casamento que fui fora do Brasil.

Muitas coisas eram marcadamente diferentes:

Éramos, ao todo, em torno de 25 pessoas, contando com o fotógrafo. O último casamento que fui no Brasil tinha 6 pessoas apenas na equipe de vídeo e fotografia…

Todos chegaram a pé, ou de metrô, ou de ônibus. Não havia limosine ou SUV trazendo a noiva, como estamos acostumados a ver por aqui.

Ao terminar a cerimônia em uma das Mairies de Paris (espécie de prefeitura de bairro), o grupo saiu andando em conjunto sob a bela luz de um meio-dia cinzento de Paris.

Alguns poucos quarteirões depois, chegamos ao restaurante. Decorado e reservado inteiro para nós.

Lugar agradável, com comida incrível, e que eu já conhecia. Já que você tem que casar na Mairie do seu bairro, as coisas tendem a acontecer em lugares conhecidos, próximos de casa. No ano anterior, o casal havia nos convidado para jantar exatamente naquele restaurante.

E os 25 convidados foram suficientes para encher o lugar.

Não tinha música ao vivo, não tinha dança, não tinha, que eu me lembre, nada de música. Os únicos sons de que me recordo foram os de risadas e os de pessoas alegremente jogando conversa fora, e, de vez em quando, o pobre garçom tentando anunciar e nos descrever cada etapa da refeição.

E foram várias. Após inúmeras sequências de pratos, vinhos e bebidas, o almoço terminou e saímos todos ao mesmo tempo. E andamos juntos em direção aos nossos destinos. O grupo ia se dissolvendo aos poucos, à medida que chegávamos aos nossos pontos de partida: a estação de metrô, o ponto de ônibus, o caminho para a curta caminhada em direção à casa.

No entanto, ainda que diferente em ritual, algumas coisas não se alteram:

O amor, a alegria, o prazer de fazer parte de uma celebração da amizade e de testemunhar duas noivas podendo finalmente celebrar o seu amor.

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The Birds


Andando aqui perto de casa, um passarinho, pouco menor do que um pombo, me atacou, duas vezes. Nem chegou perto de machucar, mas que foi um susto foi.
Vai ver que ele ouviu os boatos de que vão fazer uma nova versão do filme de Hitchcock, e estava ensaiando….

Art


“There are no guarantees that if you work hard enough, or are talented enough, that you will be successful, be able to support yourself, or importantly, make a meaningful contribution to others. But in the meantime, if you are an artist, the art just comes – weather you like it or not- because you cannot stop it.” Jessica Todd Harper