Sede

O coração seco ruma em direção ao mar.
no caminho, nuvens seguem em sentido contrario
Tão melhor que chegar à Caladan da infância
seria ver chegar a chuva que transforma a terra alta
Muito maior a alegria de um mundo que sorri, que
o prazer mesquinho de banhar-se em meio a sedentos.

As Coisas: espaço vazio

Passava quase todo dia por lá. Não havia escolha: este era o caminho mais curto. Não passar por lá era reconhecer a importância do lugar, da memória referenciada daquilo que poderia ter sido.

O lugar era duplamente irreal. Ela nunca morara lá. A janela marcava o lugar apontado em uma informação desencontrada. Alí fixara residência apenas o objeto imaginado da sua paixão nunca alcançada.

Depois, conhecera o verdadeiro endereço, o verdadeiro amor, a verdadeira mulher, e, enfim, a verdadeira dor e desilusão.

Mas naquela janela, aberta para o verde onde cresce a esperança¹, sobrevivia o peso do amor maior que nunca conheceria.

Roberto Pinho

¹”aberta para o verde onde cresce a esperança”: Thiago de Mello, 1964. Estatuto do homem – ato institucional permanente.

Sargento Getúlio, Twitter e a pasmaceira neste blog

Este ano cometi um erro: li Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro. Pulei a leitura no ensino médio. Sempre com manias de grandeza, resolvi ler Viva o povo brasileiro, que nunca terminei.

Agora, Sargento Getúlio mata toda uma família de posts. Todas as vozes interiores que posso pensar são inúteis. A voz do Sargento é, assim, definitiva.

Já aqueles posts que resistem ao tiroteio do sargento, morrem na perspectiva do Twitter. No passado (A.T.), um post surgia com uma ideia, uma frase. Como escrever uma única frase em blog é coisa pobre, ficava na gaveta engordando, esperando a disposição e disponibilidade para lhe atrelar um corpo.

Agora paira a sombra do twitter: mando logo para o twitter (que não uso para escritos) ou espero a cria engordar? mas é válido criar um texto que é, em última análise, mero coadjuvante da frase principal, se há agora ferramenta em que soltar algumas poucas letras não é considerada ofensa?

No Atlântico




Em algum lugar do Atlântico perdeu-se o meu anjo exterminador.

Indeciso entre o seguir ou o voltar, afogou-se em reflexão e,

em reflexo, no espelho que queria controlar.




O mundo que herdo não é feito de alegrias ou respostas prontas. Nele cabe a tristeza no olhar do menino e cabe o adulto, que parece lhe dizer, seja na mais terna demonstração de fragilidade, seja na mais violenta explosão de quem se encontra encurralado, “dá-me a mão”.

Mas nele cabe também a leveza de saber que não tenho a resposta, e que ela não existe. Neste novo mundo, me somo ao menino que chora e ao adulto que pede colo. Me somo àqueles, que por mais perdidos que estejam, lhe trazem alguma sabedoria e também aos que, em plena certeza, semeiam os desentendimentos. Navego entre a simplicidade que salva e a que engana, entre a complexidade necessária e a sem sentido.


Neste sereno mundo, neste difícil mundo, neste mundo revolto e complexo, estou pronto a abraçar tudo que tenho e carrego, tudo que encontrarei pela frente, toda a grandeza da sua vasta experiência e da sua bela diversidade, que em tanto a mim superam. Nele, as noites são mais iluminadas e o impensado não assusta tanto.


Neste amplo mundo cabe a não trivial possibilidade do andar de bicicleta sob a chuva.

E isto

basta para me

deixar feliz.

Arte de Ananda Nahu

Amtrak

O trilho segue. Não há escolha. Pelo menos não na direção. Ficar ou seguir, é o que há. Eventualmente, uma decisão, em nosso nome tomada, e, raramente, umas poucas sob nosso controle, mas quando pouco sabemos do destino.

Business

A porta estava do outro lado da mesa. Ou melhor, a cadeira vazia estava no outro lado da sala. Sempre era assim. Sonhava em apenas aparecer e começar a falar. Podia chegar cedo e instalar-me no meu bunker. Não funcionaria.

Agora seguia. os olhos flutuando em algum lugar acima do seu corpo, apreciava o teatro. Alguns buscavam respostas. Outros, atores, imaginavam quando sairiam de cena. Alguns ensaiavam reprovação, qualquer que fosse o cenário.

Para cada face uma resposta, para cada ataque um movimento, para cada querer, uma esperança.

Agora, estavam todos ali. Imaginando o suspense. Apostando no tempo que levaria para a revelação, Disse bom-dia e notei, ao fundo da sala, uma gota de suor que atirando-se parecia me dizer: eu sabia, é o fim.

O irônico é que eu tinha uma resposta. Uma resposta arduamente computada. Uma resposta lógica, fria, imparcial, inquestionável, definitiva.

Mas agora não, ela já não existe. Todo rigor da lógica destruido nestes poucos passos, neste entrar no palco. Eis que só nos resta abrir a cortina, acender as luzes, retirar a maquiagem e devolver os ingressos.

How do you measure a year ?


Quintana ensina que a beleza da folhinha

é o arrancar da folha, belo exemplo

concreto da possibilidade do recomeço,

do refazer.


Sidarta ensina que o recomeçar

é difícil, mas possível, que a dor

mascara-se em realidade e

hábitos nos abraçam num

desespero de sobrevivência.


A idade nos ensina que mudamos,

inconstantes núvens probabilísticas que

ousam desafiar as possibilidades.

Aprende, e ensina-me.

As Coisas: Amoeba

The movie will begin in five moments
The mindless voice announced.
Everything unknown and yet possible.

Every breath, a surprise.
Every step, a test.
Every idea, expanding.

Every new dog, Oooooh, a dog, a doggie, another dog, yet another fucking dog.

Every talking computer, every fucking fake robot, every Santa Claus whispers: There are less things in heaven and earth, Horatio,
Than are dreamt of in your philosophy.
Every challenge, why ? every task, how ? every question, which answer?

Every sea, charted,
Every road, traveled,
Every day, planned,
I move: vini vidi vinci

Everything known and yet possible.
Of everything that stands, the end
Oooooh, impossible concentration.

some deliria over Doors’ songs: 1,2